Capítulo 5 — O Roubo de Livros
A residência do Senhor Huang situava-se bem no centro do povoado de Maoling.
Uma fileira de casas de barro amarelo, cobertas por telhados de palha, destacava-se entre as melhores edificações do vilarejo.
Mal haviam alcançado o muro do quintal, já se ouviam, do interior, as vozes de algumas crianças. Pareciam recitar os Analectos de Confúcio.
Yan Ming não pôde deixar de acenar com a cabeça, suspirando em silêncio: “Este Senhor Huang realmente possui visão. Já tão cedo inicia a instrução da escola confucionista, que há de reger o império e dominar os salões de poder.”
Yan San aproximou-se do portão, pôs-se nas pontas dos pés e, apoiando-se no muro, acenou para um velho de túnica cinzenta no pátio, em sinal de cumprimento.
Em seguida, sem qualquer cerimônia, empurrou a porta e entrou.
Yan Ming franziu as sobrancelhas; pelo visto, Yan San e ele próprio sempre agiam dessa maneira.
— Hóspede raro, hóspede raro. Creio que a última vez que o jovem mestre Yan visitou este velho, tinha apenas cinco anos de idade — disse o Senhor Huang, cuja aparência frágil não lhe tolhia a vigorosa autoridade na voz.
Em suas palavras, transparecia certo desdém por Yan Ming.
— Meu jovem senhor apenas... — Yan San gesticulava, mas foi imediatamente puxado pela orelha por Yan Ming, que o lançou de lado.
Só então Yan Ming fez uma reverência profunda e, respeitosamente, declarou:
— Senhor Huang, este jovem, Yan Ming, tem dúvidas que deseja humildemente esclarecer.
Yan Ming, sem saber ao certo como deveria portar-se naquele ambiente, limitou-se a repetir, de forma um tanto forçada, o que recordava da etiqueta. Ao perceber que a expressão de Huang se suavizava, sentiu-se aliviado.
Afinal, ao buscar auxílio, era preciso adotar uma postura modesta.
— O que quer que precise, jovem Yan, basta chamar, e este velho irá — disse o Senhor Huang, ainda que com altivez. Todos os anos, a família Yan lhe enviava algum dinheiro, justamente para que o imprestável Yan Ming pudesse recorrer a ele.
Em todos esses anos, Yan Ming, salvo para causar confusão, jamais lhe fizera uma pergunta acadêmica.
Não era de estranhar, portanto, que o velho mestre o recebesse com ironia; não fossem as moedas que recebia de Yan Shan, não daria atenção a um dândi como Yan Ming.
— Mestre, desejo fazer-lhe uma pergunta sobre fatos antigos da dinastia anterior — ponderou Yan Ming.
— Que fatos antigos? Este velho só conhece os Analectos de Confúcio, os tratados de Laozi e Zhuangzi. Se deseja aprender, pague a mensalidade, curve-se devidamente ao mestre e estude pouco a pouco — respondeu Huang, revirando os olhos em desdém.
Em todo o povoado de Maoling, ninguém era mais letrado que o Mestre Huang.
Agora que o imperador promulgara éditos em busca de homens virtuosos, a febre dos estudos crescia, e o valor de Huang acompanhava tal ascensão.
Yan Ming, ele próprio antes um tutor, percebia que a função que Huang exercia não era distinta da que ele ocupava outrora.
Ao vê-lo com ares de superioridade, sentiu um incômodo crescer em seu peito.
“Mestre é aquele que transmite o caminho, ensina o ofício e esclarece as dúvidas. Alguém como você não é digno de minha reverência.” Yan Ming, homem de orgulho, viera humildemente apenas por respeito ao ditado “não se envergonhar de aprender com os inferiores”.
Ao notar a arrogância de Huang, Yan Ming concebeu subitamente a ideia de fundar ele mesmo uma escola em Maoling, roubando-lhe os pupilos.
— Hum, Senhor Huang, talvez eu saiba mais do que imagina. Amanhã mesmo abrirei uma academia e veremos quem ensina melhor! — Yan Ming retrucou com um sorriso frio, voltando-lhe as costas.
Nesse momento, os ociosos do povoado já se aglomeravam para assistir.
— O filho da família Yan perdeu o juízo? Quem não sabe que desde pequeno é preguiçoso e ignorante? — cochichavam.
— Tens razão, segunda tia. Dizem que andou vagando pelos arredores, e ao voltar, já tinha a cabeça avariada!
— É mesmo? O que houve?
— Ora, não sabes? Vem cá, te conto em detalhes...
Ouvindo os comentários, o sorriso de desdém de Huang acentuou-se ainda mais. Apontando para as costas de Yan Ming, disse:
— Não só não conseguirás abrir uma academia, como, se conseguires um só aluno, eu mesmo me farei teu discípulo!
Yan Ming estacou, ignorou as faces zombeteiras ao redor e respondeu, com um sorriso gélido:
— Um aluno é pouco. Hei de trazer todos os teus estudantes para minha escola. Então, sim, aguardarei tua reverência.
Dito isso, partiu, deixando atrás de si um burburinho de comentários.
De nariz empinado e postura insolente, Yan Ming e Yan San afastaram-se pela porta principal da casa de Huang.
Ao virarem a esquina, Yan San recuperou o semblante habitual, aproximou-se de Yan Ming e cochichou:
— Jovem mestre, na casa do velho Huang há um livro de história. Sei que está no quarto dos fundos.
Piscou, cúmplice, para Yan Ming.
— Há uma janela nos fundos, hehe — acrescentou.
— Você... — Yan Ming respondeu com um sorriso malicioso, partilhando do mesmo sentimento.
Embora sua mente fosse a de um homem de trinta e poucos anos, o vigor juvenil parecia reacender em seu corpo jovem.
— Vamos! — exclamou, puxando Yan San. Juntos, contornaram a casa do Mestre Huang.
— O velho, receoso de que a umidade estrague seus livros, deixou uma janela nos fundos — disse Yan San, agachando-se e puxando Yan Ming consigo. Discretamente, chegaram ao pátio dos fundos.
No meio da fileira de casas de barro, havia um pequeno respiradouro.
— Fique de vigia, eu entro — ordenou Yan Ming, preparando-se para arrombar a janela.
— Senhor, trabalhos furtivos como este cabem a mim. Se formos apanhados, é minha reputação que se perde, não a sua — replicou Yan San, segurando-lhe o braço.
— Ora, creio que a reputação do jovem mestre Yan já não vale muito em INT Maoling — riu Yan Ming, livrando-se do servo.
— Apenas vigie.
Deixando essas palavras, agarrou o parapeito.
Afinal, estávamos na antiguidade; sem cimento, sem janelas de aço, bastou pouco esforço para abri-la.
— Se guardasse dinheiro aqui, já teria sido roubado até o último centavo — murmurou Yan San, divertido.
Yan Ming, com passos leves, saltou para dentro. No pátio da frente, após o tumulto causado por Yan Ming, o Mestre Huang, irritado, repreendia seus alunos.
Ouvindo a voz exasperada de Huang, Yan Ming sorriu de canto e pôs-se a vasculhar o escritório.
A maioria dos livros era composta por rolos de bambu, gravados com estiletes, empilhados em poucos volumes.
Yan Ming abriu os rolos; quase todos traziam inscrições da era pré-Qin, cujo conteúdo não examinou a fundo. Não sendo registros da dinastia anterior, lançava-os para o lado.
Depois de examinar toda a coleção, não encontrou nada sobre a história que buscava.
— Viagem perdida? — pensou, quando, de relance, avistou, sobre uma mesa junto à janela, uma pilha embrulhada em tecido branco.
— Realmente, “à sombra do candeeiro, tudo é escuro” — exclamou, batendo na testa e lamentando sua distração.
Ao saltar pela janela, sua atenção fora atraída pelos rolos sobre a mesa principal, e não notara a pequena mesa ao lado, onde havia aquela única pilha coberta.
Aproximou-se, retirou o pano e seus olhos brilharam.
“Memórias da dinastia anterior, por Huang Shang” — seis grandes caracteres estavam inscritos no tronco de papel áspero.
— Então o velho se chama Huang Shang. Belo nome — murmurou, apoderando-se do manuscrito e passando-o pela janela.
Yan San, do lado de fora, apanhou-o e o escondeu no peito.
Yan Ming olhou ao redor, apanhou um rolo de bambu, dobrou-o em forma quadrada, colocou-o sobre a mesa e cobriu-o com o tecido branco, antes de sair furtivamente pela janela.