Capítulo 4: Mundo Paralelo
Ao pensar que estava num lugar tão estranho e desconhecido quanto a dinastia Han Ocidental, o desejo de recusa de Yan Ming foi, por ora, suprimido.
— Tua avó está preocupada contigo, perguntou por ti logo ao romper da manhã. Vai logo dar notícias e tranquilizá-la — esbravejou Yan Shan, lançando-lhe um olhar impaciente.
— Está bem! — respondeu Yan Ming, pois, pelas palavras de Yan San, sabia já que a velha senhora Yan Chen era extremamente afetuosa com ele.
— E mais: nestes próximos seis meses, ficarás em casa, dedicado aos livros e à caligrafia. Não quero que vás a outros lugares passar vergonha em meu nome. Só de ver esse teu cabelo curto já me tira do sério — Yan Shan sacudiu as mangas, visivelmente contrariado.
Yan Ming seguiu Yan Shan de perto, atravessando o vestíbulo e adentrando os aposentos do fundo.
Yan Chen, a matriarca, ao saber do retorno de Yan Ming, apoiada em sua bengala de cabeça de dragão, já o aguardava ansiosa em seus aposentos.
Assim que avistou a figura do neto, a velha senhora apressou-se em sair ao seu encontro; tomou-lhe a mão com ternura, e em seu rosto bondoso transpareceu um afeto incontido, fitando-o de um lado a outro com alegria.
Por fim, ao notar o cabelo curto de Yan Ming, teve um breve sobressalto, mas logo afagou-lhe a cabeça e disse:
— Ai de mim, sempre soube que meu neto era apessoado. Com os cabelos curtos, parece ainda mais vigoroso, não é mesmo?
Ao lado, as noras de Yan Shan, grandes e pequenas, apressavam-se em adular a matriarca, ecoando suas palavras.
— Xiao Shan, não tens andado a maltratar meu neto, espero — a velha senhora virou-se, e de súbito, aquela face terna se anuviou, tornando-se fria como o gelo.
— Mãe, não podes mimar tanto o Ming’er. A família Tian, afinal, é parentela do atual Grande Marechal, não podemos ofendê-los — Yan Shan, embora não ousasse contrariar a matriarca, não deixou de expor as razões.
A bengala de cabeça de dragão de Yan Chen bateu ruidosamente no chão, e ela disse em tom grave:
— Nem venha dizer que meu neto não agradou. Com aquele aspecto rechonchudo, quem se encantaria? Olhe para suas noras: qual delas se assemelha a um suíno?
Yan Shan não esperava que a avó mimasse tanto o neto, a ponto de envolver a si próprio na discussão.
— Mãe, não é isso...
— Não é o quê? Foste gerado por mim, não conheço tuas intenções? Apenas desejas que um filho da casa Yan alcance um posto oficial, não é? Eu, embora reclusa, também sei das coisas. O imperador já promulgou o edito para a seleção de homens virtuosos. Com um neto tão bom, seria fácil para ele ser recomendado. Não vale a pena recorrer a laços de parentesco para entrar na burocracia — as palavras da matriarca deixaram Yan Shan sem resposta, restando-lhe apenas lançar um olhar furioso a Yan Ming.
Yan Ming, por sua vez, divertia-se em silêncio. Em sua vida anterior, fora um neto esquecido, sem afeto de avós ou tios.
Jamais imaginaria que, nesta era Han Ocidental, teria uma avó tão carinhosa.
— Vovó, conceda-me seis meses. Juro estudar com afinco e, quando chegar o momento, serei recomendado por mérito, para realizar o desejo de meu pai. Mas quanto ao casamento, só irá atrapalhar meus estudos. Que tal adiarmos um pouco mais, pode ser? — Yan Ming, perspicaz, agarrou-se ao braço da avó, fazendo-lhe manha.
Nem precisou de resposta verbal: bastou um olhar severo de Yan Chen para Yan Shan baixar a cabeça, suspirar e dizer:
— Vou conversar com a família Tian. Era só um compromisso, o matrimônio não precisa ser imediato.
Após repreender e censurar Yan Shan, a velha senhora o dispensou. E, então, segurando Yan Ming, pôs-se a conversar longamente sobre trivialidades familiares, até que, por fim, disse:
— Bom neto, sempre foste obediente à avó. Teu pai só deseja o melhor para a casa Yan ao buscar este laço com os Tian. Mas quem sofre és tu, meu querido.
— Mas não te preocupes: se realmente não gostares daquele gorducho do Tian Xi, a avó compensará, arranjando-te várias concubinas à tua escolha — a velha também nutria o desejo de ver a família Yan ter algum membro na administração, pois, dentre as classes — letrados, camponeses, artesãos e comerciantes —, mesmo com riqueza, os comerciantes eram sempre os menos prestigiados.
Hoje, a família Yan, embora não seja das mais ricas e nobres, figura entre as mais influentes de Maoling Tun, e, como tal, precisa zelar por sua posição social.
Ao ouvir que poderia ter várias concubinas, Yan Ming quase aceitou de pronto a proposta da avó.
Porém, as palavras de Yan Shan ecoavam: a família Tian era parentela do Grande Marechal.
Em que época estavam? Han Ocidental.
Quem era o imperador? O imperador Wu.
O imperador Wu acabara de subir ao trono, em seu segundo ano de reinado. O Primeiro-Ministro era Dou Ying, e o Grande Marechal, ninguém menos que Tian Fen.
Ainda que, à primeira vista, o poder dos Tian estivesse em ascensão — e em breve, iriam eclipsar até os Dou, tornando-se o principal clã do império —, Yan Ming conhecia bem o trágico fim de Tian Fen.
Envolver-se com os Tian? Melhor não. No fim, nem a própria cabeça estaria garantida.
Além disso, Yan Ming, amante da História, desprezava Tian Fen. Casar-se com alguém de sua linhagem? Jamais, mesmo sob ameaça de morte.
Deixando os aposentos da avó, Yan Ming voltou ao seu próprio quarto.
Yan San encontrava-se atarefado, limpando meticulosamente a escrivaninha diante dele e colocando sobre ela alguns volumes encadernados em papel rudimentar.
Yan Ming aproximou-se e folheou-os: eram nada menos que três livros — “Laozi”, “Zhuangzi” e “Os Anais da Primavera e Outono”.
— No início da dinastia Han, governava-se pelos preceitos dos mestres amarelos e de Laozi e Zhuangzi; estudar “Lao” e “Zhuang” é o caminho certo. Mas, após a morte da Imperatriz Viúva Dou, o confucionismo tomará a dianteira. Melhor preparar-me desde já — Yan Ming acenou para Yan San.
— Traga-me um exemplar dos “Analectos” — pediu Yan Ming, sem saber se a família possuía uma cópia encadernada.
Yan San retrucou:
— Ora, jovem senhor, o patrão ordenou que estudasse apenas estes três livros por agora. Se houver caracteres que não conheças, procure o mestre Huang na aldeia. Vou indo, dedique-se aos estudos — e, saltitante, saiu.
Yan Ming balançou a cabeça, sorrindo:
— De fato, sob o reinado de Han Wu Di, poucos oficiais tiveram um fim feliz. Por acaso serei eu mais um desses inúteis servos? — murmurou.
— Melhor mesmo é ser comerciante, o último degrau dos “letrados, camponeses, artesãos e comerciantes”; ganhar dinheiro é o verdadeiro caminho. Como se diz: “Sóbrio, ganho o dinheiro do mundo; bêbado, adormeço no colo das belas”. Eis a vida que desejo — Yan Ming embriagava-se com seus próprios pensamentos.
Na atrasada era Han, qualquer empreendimento parecia promissor.
Contudo, ao lucrar, há de ser discreto. Ostentação demais só atrai a atenção dos poderosos.
Uma vez notado pela corte, seria impossível manter-se à parte dos assuntos do império.
— Ai! Já que aqui estou, que seja. Serei um magnata oculto desta Han Ocidental. Farei da família Yan um clã oculto, moldando os destinos do império das sombras, através da riqueza. Não seria esse um destino ainda mais grandioso? — Yan Ming traçou, então, sua ambição.
Ajoelhando-se à mesa, abriu o “Laozi”.
Logo saltou-lhe à vista a primeira frase do Dao De Jing: “O Caminho que pode ser trilhado não é o Caminho perene; o nome que pode ser nomeado não é o Nome eterno.”
— Estes caracteres... são simplificados! Consigo lê-los! — Yan Ming exclamou, surpreso.
— Se aqui se usam caracteres simplificados, esta Han Ocidental não é a do meu mundo! Será... um mundo paralelo? — Num repente, a imagem de Stephen Hawking, com seu semblante paralisado, surgiu-lhe à mente.
Yan Ming lera “Uma Breve História do Tempo”, onde se dizia ser possível, sob certas condições, viajar ao passado.
— Será que atendi a algum requisito e vim parar neste mundo paralelo? — questionou-se, folheando o livro e notando, no canto rude da página, um grande “一” indicando a primeira folha.
E todo o volume era manuscrito.
Parecia, portanto, estar mesmo num mundo paralelo, diverso do Han Ocidental registrado na História.
— Yan San! Yan San! — bradou Yan Ming.
Lá fora, Yan San entrou, pulando como um macaco, e disse sorridente:
— Sabia que o jovem senhor não ficaria quieto. Veja, preparei tudo. Que tal irmos à casa do velho Hu, do lado oeste, caçar galinhas para comer?
Yan Ming respondeu com um pontapé, ralhando:
— E tu achas fácil criar galinhas? Vai logo e me traga um livro de história das dinastias passadas!
Yan San levou um susto.
Desde quando seu jovem senhor se importava com os bens alheios? Será que mudara de temperamento, abandonando o velho hábito de furtar galinhas? Que tédio seria...
Resmungando consigo mesmo, respondeu:
— Que livros de história há por aqui? Se queres saber das dinastias passadas, vá até o mestre Huang. Ele adora contar essas histórias, embora quase ninguém goste de ouvi-lo.
— Vamos, agora mesmo — Yan Ming não hesitou. Precisava verificar se a história deste mundo paralelo coincidia com a do seu próprio.