Volume I – O Refúgio Aquático de Liangshan Capítulo 1-7 – O Impasse Fatal
Zhao Di ansiava por deixar o acampamento militar, e a razão era simples: buscava um local onde pudesse romper a barreira do selo de exílio e recuperar seu cultivo nas artes marciais. Nos últimos meses, Zhao Di tentara incontáveis vezes, sem jamais lograr conduzir a energia primordial do céu e da terra para dentro de si. Toda vez que circulava seu poder, sua percepção espiritual podia sentir a presença da energia do mundo, mas, inexplicavelmente, não conseguia absorvê-la; era como se uma força invisível se interpusesse, isolando-o da vitalidade do universo.
No início, Zhao Di ignorava a origem dessa força, até que, em certa ocasião, conversando distraidamente com Xiao Di, veio a saber que a marca dos escravos de armadura continha um selo imbuído de poder arcano. Esse poder era capaz de vedar completamente a conexão de qualquer cultivador ou guerreiro com a energia primordial, tornando impossível romper o selo e absorver a vitalidade do universo enquanto se estivesse sob a égide do destino nacional da dinastia Song.
Por isso, Zhao Di tramava por todos os meios uma fuga: apenas ao abandonar o território da dinastia Song, escapando do alcance do destino imperial, teria ele a chance de romper as amarras do selo e cultivar novamente as artes marciais.
Ora, se os bandidos de Liangshan ousavam atacar Danzing, era certo que seu covil se encontrava além das fronteiras da Song, pois, do contrário, não escapariam ao escrutínio dos grandes esquadrões de observação celeste do império. Eis a razão de Zhao Di preferir arriscar a própria vida ao juntar-se a Liangshan: necessitava de um refúgio onde pudesse se dedicar, em segredo, ao seu cultivo.
Assim, ao recobrar a consciência, sua primeira ação foi tentar absorver a energia primordial para restaurar seu poder marcial.
A técnica de cultivo de Zhao Di chamava-se "Destruição dos Seis Caminhos". Descobrira-a por acaso em um antigo tomo fragmentado. Justamente por ter praticado essa técnica, conseguiu ascender rapidamente no submundo, sobrevivendo a cem batalhas até conquistar o trono subterrâneo – tudo graças a esse fortuito legado.
Somente após iniciar-se nesse método Zhao Di compreendeu o quão poderoso era o cultivo das antigas artes marciais. Contudo, os tempos haviam mudado; a energia primordial rareara, incapaz de sustentar o desenvolvimento do antigo caminho marcial. Para progredir, teve de viajar por toda parte, pagando alto preço por escassos resultados.
Justamente por a técnica ser tão singular, Zhao Di conseguiu, mesmo sob condições de energia rarefeita ao extremo, alcançar a soleira da transformação do Jing em Qi – o limiar do chamado estado de transcendência, onde a força de um só golpe podia rachar montanhas e caçar tigres.
Infelizmente, após atingir esse estado, seu cultivo estagnou; novamente, a limitação era a escassez da energia primordial, insuficiente para impulsioná-lo ao próximo patamar. Assim, esmerou-se por anos sem avançar um único passo.
Contudo, ao chegar a este mundo, embora incapaz de absorver a energia primordial, Zhao Di pôde ao menos percebê-la: era aqui densa e abundante, um verdadeiro paraíso para cultivadores marciais. Isso aguçou seu desejo de fugir do acampamento militar, pois não suportava a dor de estar diante de um tesouro e não poder tocá-lo. Não fosse por sua índole firme, tal sofrimento já o teria enlouquecido.
Zhao Di sentou-se em posição de lótus e esvaziou a mente, logo mergulhando em estado meditativo. Sua consciência brilhou, iluminando os céus e a terra; e aquela energia invisível, como névoa ou algodão, fervilhava em marés sob o reflexo de sua luz espiritual. Com um movimento sutil, Zhao Di guiou essa maré em sua direção.
Mas, ao se aproximar a três polegadas de sua consciência, a energia de imediato se dispersava, repelida por uma barreira invisível. O poder do selo em sua testa permanecia, obstando-lhe a absorção da vitalidade do mundo.
Ainda assim, Zhao Di não desanimou. Notara que, de fato, ali o poder do selo havia enfraquecido bastante. No acampamento, nem sequer conseguia agitar a energia primordial, apenas pressentia um laço tênue e fugidio. Agora, o selo apenas mantinha a energia a três polegadas de sua consciência – e isso já lhe acendia nova esperança.
Com a energia primordial tão próxima, Zhao Di concentrou-se ao extremo, disposto a romper aquela distância com o último fulgor do espírito. Sua consciência brilhou intensamente, arremetendo contra a barreira. Um baque surdo: o mundo rodopiou, e Zhao Di tombou sobre a cama de pedra, gemendo e segurando a cabeça em agonia.
Acabara de lançar sua vontade contra o obstáculo invisível, mas a colisão fragmentou-lhe o espírito, trazendo uma dor lancinante e expulsando-o do transe.
Apesar da dor excruciante, Zhao Di não pensou em desistir. Após rolar um pouco, controlou-se, tornou a sentar-se e tentou meditar outra vez. As veias em sua têmpora saltavam; o suor escorria, encharcando-lhe as costas, sinal de que o sofrimento permanecia.
Mesmo assim, persistiu. Passou-se um longo quarto de hora até que, graças à sua indômita determinação, Zhao Di conseguiu novamente afundar na meditação, mesmo sob tamanha dor.
Baque. Baque, baque, baque...
Já não sabia quantas vezes tombara; o corpo inteiro encharcado de suor, o rosto pálido como papel, exausto a ponto de mal conseguir erguer-se sobre a pedra. A fisionomia, torcida pela dor extrema, mas os olhos ardiam com o brilho da esperança.
Sim, após mais de uma centena de tentativas, Zhao Di percebeu que o selo em sua consciência enfraquecera ainda mais – agora, menos de duas polegadas o separavam da energia primordial. Compreendeu, então, que sua persistência era correta: mais alguns esforços, e enfim romperia a prisão.
Mas já não restava força; o espírito estava exaurido. Não fosse pela obstinação que o sustentava, a dor dilacerante já o teria levado à loucura.
Sabendo que, nesse estado de sofrimento, não deveria permanecer desperto, Zhao Di, ao notar que chegara ao limite, tombou a cabeça e desmaiou.
Quando recobrou os sentidos, o estômago roncava de fome. Estranhou que, após tanto tempo, ninguém tivesse entrado na caverna onde se encontrava. A vela sobre a mesa de pedra já se apagara, sinal de que transcorrera longo período. Sentia-se perplexo, mas não saiu à procura de comida; em vez disso, sentou-se novamente para meditar e atacar, mais uma vez, o selo. Seguiu-se outro período de tortura: suor escorria, o rosto lívido, o corpo quase exausto – mas ele teimava, ansioso por romper logo o selo.
Nesse momento, a força do selo em sua testa restava inferior a meia polegada – parecia que, a qualquer instante, um novo ímpeto seria suficiente para romper a barreira. Justamente então, passos apressados soaram; alguém entrou, agarrou Zhao Di sobre a pedra e interrompeu sua meditação sem dizer palavra.
Despertado abruptamente, Zhao Di lutou para suprimir a dor lancinante e, ainda que exausto, perguntou em voz fraca: “Para onde me levam?” Mesmo à beira do colapso, conservava certa lucidez. Observando as fisionomias hostis dos dois homens que o escoltavam, percebeu que algo imprevisto ocorrera e, mantendo a frieza, procurou extrair informações.
Pelas vestes simples, notou que eram apenas soldados de baixa patente em Liangshan, homens de pouca instrução e fáceis de manipular.
De fato, ao ouvi-lo, ambos lançaram olhares de desprezo. Um deles, impaciente, esbofeteou Zhao Di, praguejando: “Desgraçado! Por sua culpa fomos marcados pelo governo! Nestes dias, soldados cercam a montanha, e só graças ao grande mestre Gongsun e à matriz arcana erguida por ele escapamos da captura!” E, dizendo isso, ergueu a mão para golpeá-lo de novo.
O outro, porém, conteve-o a tempo: “Deixe disso! Olhe o estado dele – se o matar, com que prestaremos contas? Este sujeito é requisitado pelas autoridades, e se algo acontecer, não poderemos nos responsabilizar.”
Apesar das palavras desconexas, Zhao Di captou duas informações essenciais: primeiro, Liangshan estava de fato cercada por tropas e a situação era crítica; segundo, os homens da montanha acreditavam que o cerco se devia a ele, pretendendo entregá-lo para aplacar a ira do governo.
À sua maneira, tais conclusões soavam absurdas, mas Zhao Di não se enfureceu; ao contrário, analisou friamente a inesperada crise, buscando nela uma fresta de esperança.
Se realmente fosse vendido por Liangshan, como traidor cairia nas mãos das autoridades, e o desfecho seria, sem dúvida, trágico – algo que Zhao Di jamais desejaria experimentar.
Mas, na situação em que se encontrava, já não podia contar com apoio externo: nem mesmo Li Kui poderia ajudá-lo, pois tal decisão certamente partira do alto comando de Liangshan, e figuras como ele não tinham voz na questão.
Restava-lhe, portanto, apenas confiar em si próprio.
Toda essa análise se desenrolou em fugazes instantes no pensamento de Zhao Di. Então, sob a custódia dos dois soldados, começou a debater-se e gritou: “Quero comer! Não como há dias! Se querem minha morte, ao menos não me deixem morrer de fome – se não me trouxerem comida, morderei a língua e morrerei aqui mesmo!”