Volume I — O Refúgio Aquático de Liangshan 1-4 — Conspirações
Sob o apressar de Zhao Di, Xiao Di finalmente voltou a si, levantando-se de imediato e correndo para a embarcação voadora. Com o assombro de um camponês diante de um espetáculo estrangeiro, postou-se no convés, fitando ora à esquerda, ora à direita, incapaz de conter a admiração:
— Uau, isto é mesmo uma embarcação voadora? Zhao, como foi que a conseguiu?
Enquanto manobrava o veículo para que alçasse voo novamente, Zhao Di, com um sorriso jocoso, advertiu-o para firmar-se e respondeu:
— Precisei roubá-la? Ora, eles mesmos a trouxeram e me presentearam! Até nos enviaram um piloto, mas o mecanismo é tão simples que nem precisamos dele.
Na direção indicada por Zhao Di, Xiao Di notou, enfim, o soldado caído no canto, abandonado à própria sorte. Ainda assim, não acreditou nas palavras de Zhao Di — quem daria uma embarcação voadora a um escravo de armadura?
Vendo o olhar invejoso de Xiao Di sobre sua destreza ao manejar a nave, Zhao Di acenou:
— Venha, vou lhe ensinar como se controla esta embarcação. Em breve, será você o responsável pelo comando; tenho outros assuntos a tratar.
Sob sua orientação, Xiao Di rapidamente se adaptou ao ofício. Embora os movimentos ainda revelassem certa inexperiência — afinal, era sua primeira vez — e alguns lapsos ocorressem por nervosismo, o entusiasmo que lhe coloria o rosto era impossível de disfarçar; como uma criança agraciada com um brinquedo inédito, ruborizava-se de alegria.
Quando percebeu que Xiao Di já dominava o essencial, Zhao Di ordenou:
— Baixe um pouco a altitude e posicione a embarcação sobre o hangar aéreo.
— Ah! — exclamou Xiao Di, tomado de surpresa. Supunha que, após tomarem a nave, Zhao Di fugiria sem olhar para trás. Jamais esperaria que, após lhe ensinar a manejar o veículo, Zhao Di ordenasse que regressasse ao próprio hangar.
Por um instante, Xiao Di sentiu-se perdido, sem saber se Zhao Di brincava ou falava a sério; sua expressão era de quem estava prestes a chorar:
— Zhao, você… está brincando, não está?
Com um sorriso sarcástico, Zhao Di fitou-o e retrucou:
— O quê, está com medo? Assim não serve. Por vezes, quanto maior o temor, mais rápida a morte. Nós, relegados ao mais baixo estrato da sociedade, só temos uma alternativa: lutar desesperadamente e agarrar cada oportunidade, pois só assim poderemos transformar nosso destino. Não tema; cumpra apenas o que ordeno.
Mesmo sem compreender plenamente, Xiao Di acenou, percebendo pela voz de Zhao Di que não se tratava de uma pilhéria. E vendo a leveza com que Zhao Di conduzia tudo, sentiu-se estranhamente seguro. Desde que decidiram fugir juntos, Xiao Di já se preparara para a morte. Contudo, diante das artimanhas de Zhao Di, que tomara a embarcação quase sem esforço, sua confiança no companheiro tornou-se absoluta.
Xiao Di pouco compreendia do mundo, mas uma certeza guardava: Zhao Di jamais o trairia. Por isso, empenhar-se-ia ao máximo em cumprir cada ordem. Cerrou os dentes, girou o leme e voou de volta ao acampamento, baixando a embarcação até uns trinta metros do chão, conforme requisitado.
No acampamento abaixo, logo notaram o comportamento estranho da nave: ora partia, ora retornava. Tal excentricidade não passaria despercebida. Soldados foram enviados ao hangar investigar; souberam que alguém ludibriara e neutralizara os guardas para roubar a embarcação, e preparavam-se para perseguir os fugitivos quando lhes informaram que a nave regressava.
Hesitaram por um instante apenas, e Zhao Di já pairava sobre o hangar. Ergueu-se no convés, sacou um rudimentar tubo de explosivos, acendeu-o com um fósforo e, após breve cálculo, lançou-o para o populationado interior do hangar.
Os soldados lá dentro jamais haviam visto tal engenho; souberam que Zhao Di levara consigo um dos seus e imaginaram que este, ao perceber o ardil, teria capturado Zhao Di e regressado. Além disso, Zhao Di trajava armadura e, a trinta metros, ninguém lhe distinguia o rosto. Assim, quando ele lançou o explosivo, todos aguardaram, supondo tratar-se de algum objeto de comunicação.
Então…
Nada mais houve.
A destreza de Zhao Di no arremesso foi impecável: o tubo caiu no centro da multidão, explodindo com um estrondo ensurdecedor. Todos tombaram sob a luz ardente da explosão.
Embora o artefato improvisado não fosse de grande poder destrutivo, sua explosão, inédita naquele mundo, produziu um estrépito tal que as armaduras dos soldados não podiam protegê-los. Todos desmaiaram sob o trovão.
Zhao Di, sempre cauteloso, lançou mais três artefatos, fazendo tremer os muros e portões do hangar, de onde nuvens de poeira se ergueram.
O alvoroço foi tamanho que atraiu todos os olhares; até mesmo os que combatiam ferozmente nos céus, como Li Kui e seus homens, pararam, assustados, fitando a origem do estrondo.
Li Kui, por mais feroz que fosse, era um só; cercado pelos oficiais do exército, não conseguia exibir todo seu vigor. Após implicar em longo combate, matara apenas mais dois líderes inimigos, e os demais, agora mais organizados, já continham seu ímpeto. Ainda que ele lutasse com crescente bravura, girando suas pesadas machadinhas como rodas flamejantes, os oficiais, amparados pela experiência militar, já conseguiam enfrentar-lhe os golpes.
Zhao Di, atento, observava o desenrolar da batalha de Li Kui. Justamente por perceber o impasse, decidiu agir de forma tão chamativa.
Ao notar todos os olhares voltados para si, soltou uma sonora gargalhada:
— Nobres heróis do Monte Liangshan! Ouvi dizer que hoje hasteais vossa bandeira em juramento. Sou Zhao Di, o Senhor do Trovão de Sangue, e desejo juntar-me aos senhores nesta grande causa, cumprindo o desígnio celestial. Aceitar-me-ão entre vós? Hahahaha!
Zhao Di sabia que, após fazer explodir o hangar do exército, apresentando-se de modo tão altivo, não teriam como recusar-lhe o ingresso; se recusassem, não seriam dignos do juramento que proclamavam.
E, de fato, mal terminara suas palavras, Li Kui respondeu com uma gargalhada:
— Bravo! Um homem de coragem! É de ti que Liangshan precisa!
Zhao Di também riu e, com reverência, replicou:
— Irmão Li, não há por que agradecer. Permita-me, pois, que o receba aqui; enquanto descansa, tomo as rédeas deste combate.
— Uahahahaha! — Li Kui ria ainda mais alto. — Não é preciso! Ainda não liberei toda minha fúria! Irmão, apenas apoie-me de perto!
Na verdade, Zhao Di não pretendia substituir Li Kui na luta; suas palavras eram mero gesto de cortesia, para firmar o vínculo e mostrar que estavam do mesmo lado.
Percebendo o orgulho de Li Kui, não insistiu e respondeu, reverente:
— Que tudo se faça conforme ordenar o Irmão Li!
Li Kui, erguendo suas formidáveis machadinhas, sorriu com desprezo aos oficiais inimigos:
— Vedes? Até os vossos desertam! Isto mostra o quanto sois desprezíveis. Hoje, farei cair todos sob minhas lâminas!
Do outro lado, os oficiais, inicialmente atordoados pelas manobras de Zhao Di, chegaram a crer que havia de fato um traidor entre eles. Mas, ao verem Xiao Di pilotando a embarcação de volta, logo perceberam tratar-se apenas de dois escravos de armadura insubordinados. Alguém riu com escárnio:
— Dois escravos ignorantes… De fato, escravos e bandidos são feitos um para o outro. Logo enviaremos vossas almas vis ao submundo!
Li Kui, que não havia notado antes, percebeu graças àquela provocação o estigma tatuado na testa de Xiao Di e ficou por um momento perplexo.
Zhao Di, no entanto, respondeu pausadamente, com desdém:
— Ah, dizem que a justiça muitas vezes reside entre os humildes, enquanto a ingratidão se esconde entre os letrados. Um herói não se mede por sua origem. O agir do homem justo, nobres senhores, está além da compreensão dos cães de guarda do Império.
Surpreso, Li Kui não esperava tal resposta, tão repleta de razão e ressonância, que de pronto encontrou eco em seu coração.
Desatou a rir, mostrando a Zhao Di o polegar:
— Excelente! Irmão, disseste tudo. Que nos importa o latir destes cães do governo?
Zhao Di retribuiu, sorrindo com polidez:
— Disse-o bem, Irmão Li.
Os oficiais, frustrados ao verem suas tentativas de humilhar e semear discórdia resultarem em laços de camaradagem entre Zhao Di e Li Kui, só podiam aumentar o desprezo:
— Bah! Ousam chamar-se homens de justiça? Não passam de bandidos e escravos vis!
— Não há o que discutir, matem-nos logo!
A altivez de Zhao Di inflamava-lhes a ira ainda mais. Para eles, Zhao Di era nada além de um escravo indigno; ver sua postura altiva feria profundamente o orgulho de quem sempre se julgara superior — desde quando um escravo ousava olhá-los de cima?
Ignoravam, porém, que quanto maior o ódio deles, mais Li Kui admirava Zhao Di, vendo nele um aliado digno.
Erguendo suas machadinhas, Li Kui bradou com riso estrondoso:
— Irmão, observa como reduzo estes cães do governo a pó!
Ao som de suas gargalhadas, Li Kui explodiu em poder redobrado, e suas lâminas rodopiavam como rodas devastando os oficiais.
Zhao Di, contemplando com serenidade o renovo do combate entre Li Kui e os oficiais, sentiu-se satisfeito: seu plano se realizara. O tom de Li Kui mudara completamente; agora, aceitava-o de fato. E era precisamente essa amizade que Zhao Di mais necessitava.
Como escravo de armadura, sem o respaldo de Li Kui, os caminhos de Zhao Di estariam sempre sob ameaça. Um estranho tentando integrar-se a Liangshan dificilmente conquistaria a confiança alheia. Seu passado de escravo, mesmo entre bandidos, não lhe daria crédito; qualquer destaque só geraria suspeitas, e um deslize poderia ser fatal — bandidos, menos ainda do que soldados, não se pautam pela razão.
Por isso, Zhao Di precisava de um protetor influente. Só assim teria chance de sobreviver em Liangshan, ainda que essa confiança fosse limitada; ao menos, alguém garantiria sua vida, evitando que, ao primeiro contato, fosse morto de imediato.
Dada uma oportunidade para sobreviver, Zhao Di confiava que saberia construir, aos poucos, um caminho entre os homens de Liangshan.
Desde que Li Kui se apresentou, Zhao Di traçara seu plano: era sua única chance, como escravo, de escapar do exército. Por isso, decidira agir sem hesitação.