Capítulo 6: O trabalhador contratado
Ao despertar no dia seguinte, Chu Ming sentia o corpo inteiro dolorido. A cama no aposento era demasiadamente dura, e ele simplesmente não se habituava a tal desconforto. Depois de lavar o rosto com a água que tirara, recorreu às memórias infundidas por Lao Yin, e, seguindo a rotina de outrora, lançou-se ao trabalho: alimentou os bois, os cavalos, as ovelhas, os muares; após dar de comer a todos aqueles animais, Xhuanzhu veio chamá-lo para a refeição.
— Ei, já vou! — respondeu Chu Ming, largando o forcado, e seguiu Xhuanzhu até o pátio do grande salão da família Zhang. Serviu-se de uma tigela de mingau e começou a beber. — Maldição, esse mingau está cada dia mais ralo! Antes ao menos havia algo sólido para mastigar, agora são três refeições diárias de mingau aguado; com isso, sinto-me sem forças — resmungava Xhuanzhu, fitando a tigela quase translúcida, em que se podiam contar os grãos de arroz. Era evidente: em ano de calamidade, mesmo antigos senhores de terras como o velho patrão Zhang não tinham vida fácil.
— Ei, Chu Ming! — chamou, de repente, o jovem herdeiro da família Zhang, aproximando-se de Chu Ming com um rifle japonês Tipo 38 nas mãos. — Jovem senhor — apressou-se Chu Ming, levantando-se para saudá-lo. Tudo aquilo fazia parte de suas lembranças. A grande calamidade ainda não havia se desencadeado por completo, e Chu Ming ainda era apenas um trabalhador contratado na casa dos Zhang, sem oportunidade de agir, restando-lhe apenas aguardar o momento propício.
— Maldição, faz dias que não provo carne! Meu pai não me deixa matar uma ovelha para comer... Vamos, vamos caçar alguma caça, estou morrendo de vontade! — disse o jovem senhor, dirigindo-se a Chu Ming. Este, ao ver o rifle em suas mãos, não pôde evitar engolir em seco. Afinal, naquela época, uma arma era símbolo máximo de poder. Chu Ming, homem comum, ansiava desesperadamente por uma para se proteger. Sabia bem que, dentro de poucos dias, bandidos invadiriam a região e a casa dos Zhang seria reduzida a cinzas. Sem aquela arma, sua chance de sobrevivência seria mínima.
— Muito bem, vou contigo — respondeu Chu Ming, sentindo-se grato pelo pequeno dom de Lao Yin: a capacidade de compreender e falar fluentemente até os dialetos daquele mundo.
— Ótimo! Vamos, hoje ao meio-dia, caçaremos uma cabra montesa para o almoço! — exclamou o jovem senhor, efusivo, fazendo Xhuanzhu engolir em seco de cobiça. Para um trabalhador como ele, carne era luxo raro; já fazia mais de meio ano desde a última vez que provara um naco. Ao ouvir que o jovem senhor levaria Chu Ming para caçar, seus olhos brilharam de inveja.
— Jovem senhor, eu também gostaria de ir — disse Xhuanzhu, largando a tigela, mas o jovem senhor lançou-lhe um olhar de desdém e replicou com desprezo: — Você? Ora, só de ouvir um tiro já cai duro de susto. Fique quieto em casa cuidando dos animais! — E, dizendo isso, saiu levando Chu Ming a passos largos, enquanto Xhuanzhu, desapontado, agachava-se de novo para sorver seu mingau ralo.
— Irmão, ouvi tudo que vocês disseram. Não importa o que caçarem, tragam um pouco para mim também. Faz dias que não como carne! Até a galinha que cozinharam, tua mulher comeu toda, nem o caldo sobrou para mim! — Nesse momento, uma jovem apareceu diante deles, segurando um gato preto nos braços, barrando a saída de Chu Ming e do jovem senhor. Evidentemente, ouvira toda a conversa e sabia que sairiam caçar.
Ao vê-la, Yang Lin soube de imediato de quem se tratava: a filha do velho patrão, Xingxing, a mesma que, segundo se lembrava do filme, era amada em segredo por Xhuanzhu. Mais tarde, porém, para não morrer de fome, acabaria vendendo-se como prostituta — um destino trágico. Xingxing era de uma graciosidade delicada, dotada daquele encanto espiritual tão próprio das moças do sul. Não era de admirar que Xhuanzhu nutrisse sentimentos por ela. Chu Ming lançou-lhe um olhar breve e voltou-se ao seu mingau, ao passo que Xhuanzhu, ao ouvir sua voz, não cessava de lançar-lhe olhares furtivos — afinal, Xingxing era o objeto de seu afeto.
— Como é que teus ouvidos são tão bons, hein? Tudo que eu falo tu escuta! Tua cunhada está grávida, tens coragem de disputar comida com ela? — repreendeu o jovem senhor com fingida severidade.
— Se não trouxerem carne para mim, vou contar ao papai e vocês não vão mais a lugar nenhum! Bala custa caro, viu? — Xingxing ameaçou, e Chu Ming, ao ouvir, pensou consigo: “Que menina astuta e travessa.”
— Está bem, está bem... Se conseguirmos alguma coisa, trago para ti. Mas não reclames se não trouxermos nada; hoje em dia, está difícil até para as pessoas se alimentarem, quanto mais os bichos do mato! — o jovem senhor respondeu, sem se comprometer. Xingxing, sensata, deu passagem, e ambos saíram do casarão, indo em direção aos campos. Tudo ao redor era de uma desolação absoluta; as plantas secas, sem um só grão. Em tempos de seca, de praga de gafanhotos, de guerra, não era de espantar que a fome devastasse tudo.
Chu Ming aproveitou o caminho para observar o estado do vilarejo: muitos aldeões de rosto macilento, crianças tão famintas que mal sustentavam o corpo. A fome generalizada estava para explodir. Sem alternativa, os camponeses refugiavam-se do vento cortante, tentando poupar energias para não sucumbirem ao desespero da fome.
De súbito, uma mulher de casaco de algodão vermelho passou diante deles, e os olhos do jovem senhor reluziram como os de um lobo faminto ao avistar a presa.
— Huazhi, Huazhi, ei, Huazhi! — chamou o jovem senhor, correndo ao seu encontro. A mulher, ao reconhecê-lo, mostrou um olhar de alarme. Ao ouvir o nome, Chu Ming logo percebeu quem era: teria uns trinta anos, mas a vida dura lhe roubara todo o viço, tornando-a semelhante a uma mulher de quarenta ou mais. Ainda assim, seus traços eram corretos, a silhueta bem-feita, e o casaco florido emprestava-lhe um ar de vivacidade.
— Huazhi, por que foges de mim? Não querias emprestado um pouco de grão? Pois bem, esta noite vá ao meu celeiro, tens quanto quiseres! — disse o jovem senhor, fitando-lhe o busto com avidez e estendendo a mão, o que a fez recuar apressada e correr para casa.
— Vai mesmo, hein, Huazhi! Não te esqueças! — gritou-lhe o jovem senhor, sorrindo maliciosamente. Enquanto houvesse grãos em sua posse, aquela mulher acabaria por se render.
— E então? — cutucou Chu Ming.
— Então o quê? — respondeu este, sem entender.
— Ora, estou te perguntando, o que achaste da Huazhi? — insistiu o jovem senhor. Chu Ming sorriu amargamente. Como virgem, nada sabia do sabor de mulher e, nos padrões do mundo real, Huazhi não tinha grandes atrativos.
— Não achei grande coisa — respondeu. O jovem senhor lançou-lhe um olhar de desdém.
— Quem falou de beleza? Falo é de atrativo! Não vês aquele traseiro, aquele peito? Isso sim é de deixar qualquer um louco! Mulher, no escuro, beleza não faz diferença! — disse, e Chu Ming não pôde deixar de admirar-lhe a personalidade lasciva, capaz de cobiçar até mulheres como Huazhi.
Passaram a manhã toda sem avistar sequer um coelho, quanto menos uma cabra montesa. O jovem senhor, faminto, perdeu o ânimo e sugeriu a volta. Chu Ming, por sua vez, encarou o passeio como um pretexto para espairecer. No retorno, Xingxing os aguardava à porta; ao vê-los de mãos vazias, afastou-se desapontada. Até na casa do senhor de terras, carne tornara-se artigo de luxo.
Ao meio-dia, o velho patrão comeu um bolo de farinha de milho, picles e um prato de repolho refogado, tudo muito insosso. Apenas a jovem senhora, grávida de muitos meses, recebeu dois ovos para reforçar-se. Seu ventre estava já tão inchado que o parto parecia iminente. O jovem senhor, aborrecido com a dieta espartana, incitava o pai a matar um porco ou uma ovelha, recebendo em troca uma pancada de hashi na cabeça. Os animais deveriam ser guardados para a celebração do mês do bebê, quando viriam parentes e amigos. Se comessem agora, o que restaria para depois? Naquele ano, porcos e ovelhas eram mais valiosos do que nunca.
Chu Ming e Xhuanzhu receberam cada um apenas um bolo de milho e meia tigela do mingau ralo que sobrara do desjejum, o que fez a cabeça de Chu Ming latejar de desalento.
À tarde, não havia serviço no campo. Xhuanzhu recolheu-se a um canto do muro e adormeceu. Chu Ming aproveitou para regressar ao mundo real, trocou de roupa e foi direto a uma casa de carnes, onde comprou, sem hesitar, mais de uma dúzia de frangos assados, dez quilos de carne bovina em molho, dez quilos de carne de porco defumada, além de várias outras iguarias. Felizmente, era comum que clientes comprassem nessas quantidades, de modo que o dono da loja não estranhou. Chu Ming, então, encontrou um local isolado e depositou tudo no espaço de armazenamento.
Depois de garantir o abastecimento de carnes, trocou novamente de roupa e retornou ao solar dos Zhang em 1942. Naquela tarde, também não havia muito o que fazer, e Chu Ming se limitou a cumprir o expediente. Quando finalmente chegou a hora do jantar, o cardápio repetiu-se: um bolo de milho e meia tigela de mingau ralo, o que lhe revolveu o estômago. Xhuanzhu reclamou um pouco, mas, resignado, continuou a comer. Para ele, em tempos como aquele, era sorte ter o que comer — não havia espaço para exigências. Não via ele próprio o jovem senhor roendo tiras de picles?
(Fim do capítulo)