Capítulo 7: É preciso buscar um mestre
Se realmente acontecesse alguma desgraça, nem mesmo eles conseguiriam ficar tranquilos. Depois que retornaram, os rostos de todos eram pura sombra e desalento; a expressão de desânimo era tamanha que não poderia ser maior. Contudo, nada podiam fazer. Tratava-se de água! Por mais destemido que fosses, conseguirias tu romper essa água?
Se a água caísse sobre ti, temo que ninguém seria capaz de resistir.
Os semblantes carregados de preocupação se multiplicavam entre eles. “E agora... o que faremos daqui por diante?”
Era evidente que já estavam tomados pelo pânico.
“E então? Se a partir de agora perdermos esse sustento, como haveremos de viver?”
Wang Dali permanecia em casa, o rosto tomado por um arrependimento profundo.
Levantou-se lentamente, sem expressão alguma no semblante. “O que disse o senhor Li não deixa de ser verdade. Reunimo-nos por temermos a opressão alheia, mas, no fim, tornamo-nos como aqueles que condenávamos. O senhor Li tem razão: em que diferimos deles? No fundo, cavamos nossa própria desgraça!”
Wang Dali suspirou fundo. “Amanhã mesmo buscarei o senhor Li!”
No dia seguinte, Li Hang, como de costume, empurrou sua pequena carroça até o outro lado da rua, defronte ao Empório da família Su.
Assim que o viram se aproximar, todos os vendedores ambulantes abriram-lhe passagem espontaneamente. Não ousavam provocar Wang Dali, mas agora menos ainda Li Hang e seus companheiros. Não apenas isso: um a um, os vendedores aproximavam-se com sorrisos aduladores.
“Muito obrigado, senhor Li! Não fosse o senhor dar um jeito em Wang Dali, ainda teríamos de pagar dezenas de wéns de aluguel a cada mês!”
“Senhor Li, diga-nos, de que imortal o senhor é discípulo?”
Oh, que bando de terráqueos tolos!
Coberto de leve desalento, Li Hang observava-os. Até pouco antes, desejavam que Wang Dali se livrasse dele. No entanto, quem acabou derrotado foi Wang Dali, e agora estavam ainda mais confusos.
Outrora, Wang Dali já era para eles uma entidade inalcançável; agora, surgia outra ainda mais imponente. Embora Li Hang não cobrasse dinheiro deles, o fato de disputar o comércio era suficiente para lhes tirar o ânimo de viver.
Cem bolos, agora divididos em novecentos pequenos pedaços.
“Bolos da Família He – porções pequenas, três por dez wéns!”
Ao bradar seu anúncio, Li Hang logo atraiu o olhar de muitos.
Na ocasião anterior, quando vendia bolos a trinta wéns cada, poucos ousaram comprar; era caro demais para suas posses. Mas agora, a dez wéns cada, os bolos tornaram-se irresistíveis.
Todos podiam comprá-los! Por dez wéns, podiam ao menos satisfazer uma pequena vontade.
“Uma delícia!”
“Ah, está mesmo saboroso!”
“Anteontem passei o dia inteiro desejando esse bolo. A propósito, senhor Li, por que ontem não veio?”
“Tu não sabes, ontem o senhor Li foi extraordinário! Conheces Wang Dali, não? Lá no cais, ele era um verdadeiro tirano. Mas diante do senhor Li, acovardou-se por completo. O senhor Li despejou um balde d’água sobre eles e saíram correndo como se queimados pelo fogo. E as artes imortais do senhor Li... Por que me empurras...? Olha, Wang Dali ousa aparecer hoje de novo, será que não aprendeu?”
Quando Wang Dali passou por ali, todos abriram caminho. Por mais que Li Hang tivesse mostrado sua força ontem, Wang Dali era ainda uma figura temida naquela região.
Afinal, Wang Dali fora soberano ali por muitos anos; diz-se que, mesmo morto, o tigre ainda impõe respeito. Se Wang Dali resolvesse agir, ainda inspirava temor entre eles.
Contudo, com Li Hang presente, sentiam-se como se tivessem finalmente encontrado um protetor.
“Wang Dali, ontem prometeste diante do senhor Li. Não temes que teu pai não encontre paz no além?”
“Olha, se insistires, o senhor Li pode usar outra vez suas artes imortais contra ti!”
Antes que Li Hang sequer abrisse a boca, um dos vendedores já se adiantava em palavras. De fato, temiam que Wang Dali viesse cobrar-lhes o preço mais tarde.
Mas antes que pudessem reagir, Wang Dali ajoelhou-se diretamente diante da barraca.
“Sou um homem rude, não entendo grandes princípios. Antes só pensava em comer e beber; quase cometi um erro irreparável. Graças ao senhor Li, despertei para a verdade!”
“O que compreendeste afinal?” Só depois de vender o último bolo Li Hang respondeu, com calma.
Ao ouvir tais palavras, Wang Dali pareceu vislumbrar esperança.
“Nós, no fundo, não somos diferentes daqueles de quem desconfiávamos! Apenas relutávamos em admitir!” Wang Dali abaixou a cabeça. No princípio, julgava estar ajudando os amigos; e eles o louvavam pela lealdade, chamando-o de bom camarada.
Mas, na verdade, apenas ele e seus amigos saíam ganhando. E o resultado?
“Hmph! Se és capaz de enxergar isso, ainda há salvação.”
Vendo que Li Hang permanecia ali após vender tudo, um vendedor diligente trouxe-lhe um banquinho.
Li Hang sentou-se, fitando o homem ajoelhado a seus pés.
Se por natureza era bom ou mau, Li Hang não sabia; mas, ao menos, o gesto público indicava arrependimento verdadeiro, uma ruptura com o passado. Do contrário, não teria ousado tal atitude ali mesmo.
“E então, o que desejas afinal?”
O que desejava? Wang Dali olhou para Li Hang, confuso.
“Eu...”
“Terás apenas uma chance. Pensa bem antes de responder!”
Depois de longa hesitação, o homem levantou a cabeça. “Senhor Li, desejo tornar-me seu discípulo!”
O semblante de Li Hang tornou-se peculiar. “E o que queres aprender?”
“Quero aprender a ler e escrever! Meu pai dizia que nos livros reside a razão. Eu quero aprender! Quero aprender com o senhor. Não desejo mais ser como antes!” Wang Dali curvou-se, batendo a testa ao chão três vezes, e permaneceu prostrado.
Li Hang ergueu-se, lançou um olhar ao corpulento homem caído ao solo e, impassível, empurrou a carroça, preparando-se para partir. “Amanhã, de manhã, estarei no mercado!”
Ao ouvir tal frase, Wang Dali ficou surpreso, mas logo entendeu.
Li Hang queria que ele fosse até lá. Embora não dissesse claramente que o aceitaria como discípulo, era, sem dúvida, um bom começo.
Ao menos, significava que ainda havia esperança!
Mais tarde, ao retornar, Li Hang percebeu que Wang Dali o seguira.
Assim que chegaram em casa, Wang Dali, como se já fosse de casa, agarrou a vassoura do pátio e pôs-se a limpar a residência de Li Hang.
As duas jovens da casa estranharam a cena.
Afinal, o sujeito que, no dia anterior, viera ameaçador, agora se dedicava à faxina, e não havia meio de mandá-lo embora. Era, no mínimo, estranho.
“Não se incomodem com ele. Deixem-no ficar.”
Pela manhã, Li Hang ia ao mercado; à tarde, dedicava-se à leitura, conforme o cronograma estipulado por sua esposa.
Para Zhou Yuling, conquistar um título acadêmico era o mais importante. Já Li Hang, sentava-se no pátio e trazia uma pilha de livros.
“Esses ficam na primeira prateleira; aqueles, na segunda. Aqui em casa, até a Xinxin já lê mais que você, então precisa começar pelo beabá!” Disse Li Hang, entregando a Wang Dali os livros para guardar. Havia preparado tudo de propósito, classificando os volumes para que ficassem organizados.
Depois de tudo ordenado, Li Hang franziu os lábios: este senhor Li é mesmo um verdadeiro letrado. Salvo por alguns volumes de geografia e história, quase tudo ali eram os clássicos confucionistas, os Quatro Livros e os Cinco Clássicos.
“Parece que terei de comprar ainda mais alguns livros!”
Para educar um homem acostumado ao trabalho bruto, não basta apenas falar de razão! Ele próprio também precisava de novos livros para instruir sua cunhada.