Capítulo Cinco: Revelado
Zheng Lang havia perguntado a Jiuqian por que não podiam simplesmente ir ao exato momento em que o Heshibi acabara de cair no mundo-alvo e recuperá-lo diretamente, evitando assim um confronto direto com o imperador da dinastia Tang.
Jiuqian explicou que isso estava relacionado às características do multiverso: dois mundos paralelos, no início, não têm qualquer ligação — cada um segue seu próprio curso, com fluxos temporais distintos. Contudo, uma vez que ocorre a troca de informações, estabelece-se uma conexão entre ambos. Na primeira interação, a informação pode surgir em qualquer ponto temporal do outro mundo; porém, depois disso, é como se uma ponte fosse erguida entre os dois universos, fixando âncoras temporais em ambas as extremidades, impossibilitando retornos a momentos arbitrários. O mundo Tang ao qual se destinavam já possuía tais âncoras desde o instante em que o banco de dados informacional ali se precipitou.
Não houve os relâmpagos e trovões que Zheng Lang imaginara; a travessia entre mundos, embora de tecnologia tão avançada, decepcionava nos efeitos especiais. Ele sentiu apenas um breve escurecimento da visão e uma sensação de ausência de peso, que durou cerca de dois segundos. Quando a visão retornou, já se encontrava em uma vasta praça, cercada por uma nevasca cerrada. A névoa era tanta que nada se via a certa distância.
— É inverno? — pensou, sentindo-se grato pela preparação. Sem pressa, Zheng Lang retirou do armazém um casaco de penas, cachecol, luvas, e em pouco tempo estava transformado numa verdadeira bola de roupas. A pequena gata preta foi enfiada junto ao peito, restando apenas a cabeça de fora.
— Jiuqian, já chegamos? O Heshibi está longe? Em que ano estamos?
O corpo da gata preta — de constituição misteriosa — também parecia sentir o frio, pois sua voz tremia:
— Que tempo miserável! Sou uma gata de pelo curto, vou congelar assim... Meu radar indica que o banco de dados está a menos de cinco quilômetros de nós. Quanto ao ano exato, não sei. Melhor darmos uma olhada ao redor.
Zheng Lang observou o entorno: a neve caía sem cessar, obscurecendo tudo ao longe; era impossível precisar o tempo do dia, talvez manhã, talvez tarde, sob um céu cinzento. Em volta, altas muralhas e, à frente, o vulto de um grande salão. Não havia vivalma — com esse tempo, era natural que todos buscassem abrigo, o que, ao menos, evitava que fossem imediatamente descobertos.
Altas muralhas e grandes salões eram comuns na dinastia Tang; impossível situar-se só por isso. Voltou-se então ao salão diante de si — na televisão, tais edifícios costumam ostentar placas com nomes. Se fosse um local famoso, poderia por elas saber onde estava, e então traçar um plano.
Chegou à soleira, sem cruzar com ninguém pelo caminho — que espécie de lugar seria esse, um templo abandonado como nos dramas de artes marciais? Ao aproximar-se, porém, notou que o salão não tinha nada de decadente: antes, exibia-se glorioso, com entalhes e pinturas, a quintessência da arquitetura oriental. Zheng Lang ergueu os olhos para a porta; lá, pendia uma placa com três grandes caracteres: Salão Lizheng.
Zheng Lang apressou-se a consultar as anotações que fizera em seu PAD nos últimos dias.
Salão Lizheng — o aposento da imperatriz Zhangsun!
Tinham sido transportados diretamente ao Daminggong. O Daminggong era a residência imperial dos soberanos Tang, equivalente à Cidade Proibida dos Qing. Mas, por que não havia uma só alma? Era o aposento da imperatriz!
Que momento seria esse? Se o Salão Lizheng existia, ao menos estavam no reinado de Li Shimin ou posterior. Se estava vazio, talvez a imperatriz Zhangsun já houvesse falecido, ponderava Zheng Lang.
Era preciso encontrar um local seguro para se abrigar. Ao perceber estar no palácio imperial, Zheng Lang sentiu um calafrio: não ousava permanecer no centro do salão por muito tempo, apressando-se a buscar um esconderijo onde pudesse esperar o resfriamento do dispositivo de transporte antes de se arriscar novamente.
O palácio estava impecavelmente limpo, sinal de que era mantido por criados. Embora a gata preta garantisse que, mesmo se alguém cruzasse com eles, sob sua interferência seriam ignorados, Zheng Lang, em sua primeira aventura deste tipo, sentia-se inquieto e desejava apenas encontrar um canto discreto para repousar.
Deu voltas até um dos cômodos mais afastados e, ao fechar a porta, percebeu-se encharcado de suor pelo nervosismo:
— Jiuqian, amplie o campo de bloqueio para cobrir todo o quarto. Não quero ser descoberto por ninguém lá fora.
— Covarde, que fraqueza! — zombou a gata. — Se já te apavoras com uma cena tão trivial, como ousas sonhar em explorar as estrelas comigo? Há mundos e mundos lá fora... Lembro de Wallace, da Estrela Bela; eu e ele, conversas cheias de graça... Ah, juventude, quanta ingenuidade...
— Não é covardia, é estratégia... estratégica covardia! — defendeu-se Zheng Lang.
Os dois discutiam seus próximos passos quando, de súbito, uma voz clara irrompeu atrás deles:
— Quem é você?
Zheng Lang petrificou. Já tinham sido descobertos? Imagens de dezenas de predecessores relampejaram-lhe pela mente, cada qual com um fim trágico — decapitação, cinzas, mortes cruéis. E afinal, estavam no palácio, homens invasores... não queria experimentar as antigas punições reservadas a tais intrusos.
Jiuqian sumiu de vista, enfiando-se por completo no colarinho; Zheng Lang virou-se lentamente para a origem da voz, repetindo mentalmente: ganhar tempo, preciso ganhar tempo, até o transporte estar pronto.
Sobre a grande cama, sentada, estava uma menina de aspecto delicado, que esfregava os olhos ainda sonolentos. Mas seu rosto parecia pálido, sem a vivacidade própria da infância; era magra, e havia marcas de lágrimas no canto dos olhos.
— Se eu disser que vim consertar o encanamento, acredita? — arriscou Zheng Lang, sem acreditar nem em si mesmo. Aliás, será que havia encanamento na dinastia Tang?
Falando disparates, sentiu-se aliviado: se era apenas uma criança, seria fácil de lidar; nem precisaria de esforços extremos para silenciá-la.
A menina piscou, os olhos negros brilhando — ali parecia residir toda a saúde que lhe restava:
— O que é encanamento?
Isso daria uma longa explicação, pensou Zheng Lang, ao menos cinquenta minutos — e não apropriada para alguém da sua idade.
Por que haveria uma criança doente assim no palácio? Seria a vida na antiguidade tão dura, que até princesas passavam fome?
Superado o pânico inicial, Zheng Lang acalmou-se. Afinal, o quarto estava sob o bloqueio da gata preta; a menina, mesmo que gritasse, não seria ouvida. Então, que temer? Se morresse ali, não teria nada a perder...
Mas, e agora, como lidar com uma menina dessas? Zheng Lang vasculhou a memória por experiências de vida, mas tudo o que lhe vinha à mente eram cenas de jovens frágeis e dóceis, "tio te leva para ver peixinhos", influência dos tipos mais sórdidos da internet...
Não é que eu goste de menininhas; mas de que gostam as menininhas, afinal? Maldição!
De repente, lembrou-se de um filme: claro, "tio te dá um pirulito"!