Capítulo 4: O Grande Sacerdote
No interior do espaço, havia lugares cobertos por densa sombra verdejante, outros repletos de frutos maduros, e ainda outros alvos sob a neve, de modo que seria impossível discernir a estação do ano. As quatro estações ali se entrelaçavam em perfeita harmonia. Por mais vezes que a irmã Menggu adentrasse esse espaço, jamais deixava de se encantar pelas paisagens; era tudo de uma beleza fulgurante.
— Menggu chegou; Jinzi estava justamente resmungando por que você ainda não entrara — assim que pôs os pés naquele mundo, a voz prateada de Yinzi soou ao seu ouvido, leve como o tilintar de campainhas.
— Aposto que só sente falta dos pratos que preparo. Isso é pura exploração infantil… — Menggu, descontente com as iguarias daquele tempo, sempre carnívoras e raramente com uma folha verde à vista, aproveitava sua meninice para saciar-se no espaço, já que no exterior não lhe era permitido ousar. Jamais imaginara, porém, que acabaria escravizada como cozinheira de Jinzi. Apesar do protesto, seus olhos transbordavam alegria.
— Que fingimento pueril — Jinzi, altiva, lançou-lhe com a cauda um grande pêssego suculento ao colo, meneando a cabeça com desdém.
Menggu sorriu para Jinzi, que mantinha sempre ares de nobreza; Jinzi sabia bem do seu gosto por pêssegos. Menggu, embora ainda fosse uma criança, já revelava traços de um futuro extraordinário, mas sabia guardar compostura fora daquele espaço.
— Yinzi, vamos à cozinha — disse Menggu, pois era então que se sentia mais à vontade. Mesmo alvo do escárnio de Jinzi, ali podia falar sem reservas.
Preparou uma refeição caseira simples. Afinal, Menggu era apenas uma menina de três anos, e só conseguia cozinhar graças à ajuda de Yinzi; pratos mais complexos estavam fora de cogitação. Jinzi apreciava não apenas pelo sabor, mas porque, há tanto presa naquele espaço, nunca experimentara alimentos cozidos, e a qualidade dos ingredientes era incomparável.
Saciada sua vontade e alimentados Jinzi e Yinzi, Menggu sentou-se no balanço, uma taça de sumo nas mãos, a desfrutar a paisagem.
Recordava-se vivamente de sua primeira entrada naquele espaço: avistara, ao longe, serras onduladas cobertas por árvores frondosas, e, ao sopé, campos cultivados de inúmeras plantas, estendendo-se até onde a vista não alcançava. Diante dos campos, um rio de curso misterioso fluía incessante, sem revelar sua nascente.
Foi só um vislumbre inicial, pois, após inúmeras explorações, cada visita a surpreendia mais: montanhas infindas, árvores e frutas de toda sorte, campos sem fim de hortaliças, ervas e plantas medicinais, montanhas nevadas quase inatingíveis, minas, mares sem fronteiras, rios sem origem à vista, vulcões fumegantes nas extremidades, fontes termais que restauravam as forças, nascentes espirituais que curavam todos os males...
Havia, ainda, o armazém de vastidão ilimitada, repleto de tesouros de valor incalculável, muitos dos quais Menggu só ouvira falar ou vira ilustrados em livros — sem falar das riquezas mais vulgares, como ouro, prata e pedras preciosas. Agora, tudo lhe pertencia por inteiro. Só após incontáveis sobressaltos Menggu aprendeu a encarar tais maravilhas com serenidade.
Depois de comer, beber e divertir-se, Menggu deixou o espaço. Certificou-se de que não havia movimento algum, só então repousando, tranquila.
Talvez por causa do espaço, seus cinco sentidos estavam agora extraordinariamente aguçados — condição que, por vezes, era mais um fardo que uma bênção, embora, bem controlada, pudesse trazer vantagens.
Por exemplo, a audição: quando ainda menor, Menggu não sabia filtrar o que devia ou não escutar, e muitos ruídos repentinos a sobressaltavam ou a deixavam tonta. O olfato, igualmente: qualquer odor estranho era prontamente percebido, o que acabou por incutir em todos do palácio o hábito de banhar-se diariamente — especialmente Yang Jinu, Nalinbulu e Jintaishi, que ao voltar à residência, tratavam logo de se lavar, caso contrário encontravam Menggu franzindo o nariz e afastando-se deles.
Talentos inatos, sentidos aguçadíssimos — rumores sobre tais dons circulavam no palácio, mas os mais supersticiosos apenas murmuravam que Menggu era abençoada, uma protegida dos deuses. Numa era tão supersticiosa, ninguém ousava espalhar tais boatos, ficando o segredo restrito aos familiares mais próximos.
Não muito depois de se admirar da credulidade daqueles antigos, Menggu teve o raro privilégio de conhecer, com seus próprios olhos, um lendário emissário dos céus — alguém tido como o mais próximo dos deuses.
— Ama, o senhor procura por mim? Trouxe presentes de novo? — Menggu, após tomar o desjejum com Borjigit e Nichuhe, foi avisada de que Yang Jinu a chamava. Correu apressada até o escritório, saudando-o jubilosa.
— Menger… — Yang Jinu, enternecido pela afeição da filha, conteve-se ao notar a presença de um visitante, saudando-a em tom suave.
Ao ouvir a chamada, Menggu logo percebeu que havia uma visita. Sabia que, nessas ocasiões, Yang Jinu e Borjigit tornavam-se mais rígidos com ela. Diante disso, conteve os passos e viu, ao lado do pai, um ancião de longas barbas brancas, cuja idade avançada era evidente.
Menggu, intrigada e curiosa, fitou o velho, sentindo que aquele olhar parecia sondar-lhe a alma. Um leve desconforto a acometeu, mas manteve a expressão de uma criança inocente, desafiando-se internamente a testar as habilidades daquele homem, tido como um ser sobrenatural. Assim, serenou o espírito.
— Menger, este é o Grande Sacerdote; cumprimente-o — lembrou Yang Jinu, ao notar a hesitação da filha.
— Venerável Grande Sacerdote — Menggu, obediente, imitou os gestos de saudação de Nichuhe, curvando-se respeitosamente. O movimento era vacilante, mas perdoável: afinal, tinha apenas três anos e não aprendera ainda todos os ritos, de modo que ninguém a repreendeu.
O Grande Sacerdote — também chamado de xamã — era muito respeitado. Menggu ouvira histórias sobre ele contadas pelos criados do palácio; como não sentir curiosidade? Enquanto ele a fitava, Menggu sentou-se ao lado de Yang Jinu, observando-o discretamente.
Ali sentada, percebeu o nervosismo do pai, cujas mãos estavam crispadas. De fato, todos sabiam do prestígio e do temor que a presença do Grande Sacerdote inspirava, mas apenas Menggu mantinha o espírito divertido, como quem assiste a um espetáculo.
— Grande Sacerdote… — Yang Jinu, aflito pelo longo silêncio do ancião, arriscou uma pergunta, a voz tremulando.
— Hahaha… Príncipe Beile, é melhor deixar que a menina se retire — sugeriu o Grande Sacerdote, rindo, deixando claro que desejava uma conversa a sós.
— Ama, então me retiro — Menggu compreendeu logo e não insistiu em ficar. Ao atravessar a soleira da porta, lançou um último olhar ao ambiente fechado, afastando-se a passos lentos. Mas, é claro, seus sentidos aguçados lhe permitiam ouvir sem estar presente.
— Grande Sacerdote, e quanto ao destino de Menger? — indagou Yang Jinu, inquieto.
— A Segunda Princesa é uma afortunada, de sorte nobre, capaz de transformar infortúnio em bênção, de proteger seus entes queridos. Haverá de ser a mais ilustre entre todas as mulheres…
O restante se perdeu para Menggu; mesmo seus dons não faziam dela onisciente. Ainda assim, ao captar aquelas palavras, não pôde deixar de crer que certas pessoas realmente possuíam dons extraordinários, como o Grande Sacerdote. Não estava errado: seu regresso era, afinal, para proteger os seus, e sabia que, embora imperatriz apenas postumamente, esse título também lhe cabia.
Menggu não se deteve muito nas reflexões sobre seu destino, logo as deixando de lado. Aos olhos dos outros, de todo modo, era como se tudo soubesse. Voltando aos aposentos de Borjigit, apenas relatou ter visto o Grande Sacerdote e, após breve permanência, retirou-se. Borjigit, ao saber, compreendeu a situação e, percebendo que Menggu nada soubera, nada mais perguntou, embora permanecesse inquieta no íntimo.
O que Menggu ignorava era que, graças àquela leitura do destino feita pelo Grande Sacerdote, Yang Jinu e seu irmão Qingjianu escapariam de cair nas mãos da dinastia Ming, desviando a tragédia. Eis, pois, o transformar do infortúnio em sorte, a proteção dos entes queridos.
Despreocupada com o próprio destino, Menggu agora conspirava com Nichuhe sobre assuntos bem mais leves. Aproximava-se o Festival de Maio, e, embora já estivesse naquele lugar havia três anos, jamais saíra do palácio. Dias atrás, ouvira Nalinbulu e Jintaishi narrarem as festividades exteriores e sentira-se tentada a participar — e agora buscava aliados.
No povo manchu — ou melhor, no povo Jurchen, pois o nome "manchu" só seria adotado mais tarde por Huang Taiji, como Menggu bem sabia —, o Festival de Maio, correspondente ao Duanwu, era celebrado com grande solenidade, estendendo-se do primeiro ao quinto dia do quinto mês, com múltiplas atividades.
Por isso Menggu se sentia tão tentada a sair. Nichuhe poderia participar, mas ela, por ser tão pequena, não tinha permissão. Para conquistar tal liberdade, só mesmo tramando em boa companhia.