Capítulo Cinco: Dois Eus

Pintu Malam Tertutup Delapan Sekop 3563kata 2026-03-15 14:32:20

Parei, sem saber o que fazer, a mente zunindo, como se todos os sustos dos últimos vinte anos não fossem nada diante do pavor desta noite. O fenômeno do “fantasma da parede”, eu já ouvira os velhos do vilarejo contarem: se acontecer, procure algo que possa ser queimado, faça montes e acenda-os em linha reta, sem curvas, até alcançar a saída, e assim romperá o encantamento.

Segundo eles, o “fantasma da parede” nada mais é do que o homem sendo ludibriado pelos espíritos, girando em círculos no mesmo lugar; basta seguir uma linha reta, para escapar.

– Fogo, fogo! – exclamei.

Agi juntando folhas de bambu, procurei o isqueiro, mas ao apalpar o bolso, não o encontrei, sem saber onde o perdera. O celular, ao menos, ainda estava comigo, não fora tomado por Huang Daxian e seus comparsas.

Ter o celular já era bom, ao menos tinha luz.

Com mãos trêmulas, liguei a lanterna do telefone, iluminei ao redor, mas não vi nada.

Foi então que o aparelho tremeu de repente, assustando-me a ponto de quase deixá-lo cair. Olhei: era uma mensagem, que fez meu coração saltar ao ápice.

Era ele!

Aquele número fantasma!

Novamente enviava mensagem, dizendo: Siga em linha reta, não importa o que ouça, não olhe para trás.

Minhas pernas tremiam. Eu havia colocado aquele número na lista de bloqueio, como podia ainda receber suas mensagens?

Mas não me detive a pensar nisso; o que mais precisava era alguém para me guiar, ainda que fosse por um SMS enigmático.

Era uma tábua de salvação; seguir suas instruções era melhor do que nada.

Disparei em corrida, ignorando os sons atrás de mim, jurando que não olharia para trás, correndo o máximo que pudesse.

Correndo, vi que o limite do bambuzal se aproximava subitamente, e logo atravessei.

– Caramba!

Praguejei, eufórico; finalmente escapara. Sem hesitar, corri na direção das luzes e logo avistei a trilha de terra que levava de volta ao vilarejo. Correndo por ela, em vinte minutos cheguei em casa.

Sem parar, entrei direto; meus pais já dormiam, apenas o cão preto da família latiu duas vezes, como se me desse as boas-vindas.

Suspirei aliviado. Os idosos sempre diziam que cães pretos afastam o mal; com ele por perto, nada de maléfico ousaria se aproximar, e se viesse, ele daria o alarme.

– Hei Hu! – chamei.

Era um cão rústico, criado por meu pai, já com seis ou sete meses.

– Au! – respondeu, abanando o rabo, veio roçar-se em minha perna, afetuoso.

Vendo que nada de estranho lhe acometia, fui me acalmando.

Ao me acalmar, percebi algo errado. Aquele número fantasma, como sabia que eu enfrentara o “fantasma da parede”? Estaria ele por perto, observando-me?

E, pensando na mensagem de dois dias atrás, era claro que insinuava que a esposa de Hong Qingsheng sofreria algum revés, que o filho em seu ventre não sobreviveria; ele já sabia que a família Hong passaria por desgraça.

Seria ele Gao Mingchang? Mas não faz sentido: se Gao Mingchang queria mal ao filho de Hong Qingsheng, por que me alertar? Além disso, fora levado pelos policiais do condado, não poderia estar no bambuzal.

Quem era ele então? Poderia ser um rival de Gao Mingchang, como Ma Jialiang dissera, alguém que não queria que Mingchang ascendesse?

Quanto mais pensava, mais aterrador tudo ficava, uma avalanche de dúvidas me levava a suspeitar: seria ele homem ou fantasma?

Meu coração era um novelo de angústia, impossível de desenredar, e então me lembrei de Huang Daxian: por que queria me queimar vivo?

Dissera que algo do vilarejo estava de olho em mim; que coisa seria, capaz de inspirar-lhe tanto temor? O que o afugentara, seria essa entidade do vilarejo? Seria o espírito vingativo da esposa de Hong Qingsheng?

E quem afrouxara a corda para me libertar no bambuzal? Por que não se revelou?

Minha cabeça parecia prestes a explodir; tudo parecia interligado, mas não conseguia ordenar nada. Intuí, vagamente, que caíra numa trama sombria, uma teia invisível se estendendo sobre mim.

– Espere, ele deve saber algo.

Peguei o celular; Huang Daxian não estava por perto, ninguém mais poderia saber, o único possível fio da meada estava ali, no meu telefone.

Olhei o relógio: meia-noite e quinze. Liguei para o número fantasma.

Mas, para minha decepção, tentei várias vezes e só recebi a mensagem de que o número não existe.

Insatisfeito, enviei um SMS: Foi você quem me salvou?

Para minha surpresa, a mensagem foi enviada com sucesso, e logo veio a resposta: “Não.”

Enviei outro: Quem é você? Você sabia que algo aconteceria à família Hong?

Desta vez, o SMS não foi enviado; tentei de novo, sem sucesso.

Deixei o telefone, a cabeça ainda mais confusa. Se não foi ele quem me salvou, como sabia do “fantasma da parede”? Quem me salvou, afinal? Seria um cúmplice dele?

Assim, vaguei em pensamentos por muito tempo, sem obter qualquer resposta. Sentindo-me sujo, fui tomar banho; nem nisso tive coragem de estar sozinho, amarrei Hei Hu com uma corrente e o trouxe para o banheiro.

Não havia outro jeito; era medo de verdade.

Hei Hu ao menos proporcionava um mínimo de sensação de segurança.

Não sei se os velhos tinham razão, mas Hei Hu era um animal vivo, ao menos.

Depois do banho, deitei-me na cama, com Hei Hu preso dentro do quarto. Não tive coragem de apagar a luz, fechei portas e janelas com rigor. O susto do dia fora tanto que não ousava dormir; fiquei de olhos abertos, esperando o galo cantar ao amanhecer para então descansar.

Mas, já na segunda metade da noite, sucumbi ao sono e adormeci, meio consciente.

Mesmo sonhando, não tive paz; ouvia sempre uma voz me inquirindo: por que não segurou a criança? Essa voz tornava-se cada vez mais clara, familiar, até que, de repente, o rosto ensanguentado da esposa de Hong Qingsheng surgiu.

– Ah! – gritei, pulando da cama, só então percebendo que era um pesadelo.

– Chun’er, o que houve? – minha mãe bateu à porta, certamente ouvira o grito.

Enxuguei o suor da testa, e disse: – Mãe, não foi nada, só um sonho ruim.

– Você, desde que voltou ontem à tarde, não saiu do quarto, está com fome? Venha comer – disse ela.

– Já vou – respondi, olhando o relógio: já era meio-dia.

Espere.

Algo não está certo!

Quando foi que voltei à tarde? Eu me lembrava de ter voltado só na madrugada.

Fiquei assustado, abri depressa a porta e vi meus pais sentados na sala, preparando-se para almoçar. Sentei e perguntei à minha mãe:

– Mãe, ontem eu… voltei à tarde?

– Você está tão faminto que nem lembra quando voltou? – minha mãe me censurou, servindo-me uma tigela de arroz.

Engoli saliva, inventando: – É que ontem bebi um pouco, esqueci.

– Jialiang disse que você voltou ontem à tarde, e ficou trancado no quarto, nem veio jantar – disse meu pai.

Ma Jialiang disse que voltei à tarde? Eu lembrava claramente de ter voltado só na madrugada; por que ele diria isso?

Quando ia perguntar, vi estacionada à porta uma moto de três rodas.

Quando ela voltou? Não fora deixada na porta do hospital?

Verifiquei a chave: estava pendurada em minha calça, era a única.

– Caramba!

Caí do banco, assustado.

Meus pais, alarmados, apressaram-se em me levantar; minha mãe perguntou por que eu parecia tão pálido, mas não demonstrei nada, apenas disse que o excesso de bebida me deixara zonzo.

Ela me advertiu, dizendo para beber menos, sem suspeitar de nada.

Comi, temendo que meus pais percebessem algo; se soubessem o que passei, seria um caos.

Comia, mas a mente estava vazia. Eu sabia que voltara de madrugada, a pé, sem usar a moto, cuja chave estava comigo; meu pai não sabia pilotar, então não a usara.

Quem trouxera a moto de volta?

Ma Jialiang disse que voltei à tarde; teria se confundido?

Ao examinar meus pulsos, vi que as marcas das cordas, embora tênues, ainda eram visíveis, prova de que o ocorrido no bambuzal era real, que Huang Daxian realmente me sequestrara.

Sendo assim, como explicar a moto de três rodas?

Além de mim, quem poderia tê-la trazido de volta?

Depois do almoço, saí imediatamente à procura de Ma Jialiang, peça-chave para desvendar o mistério. Antes de sair, examinei a moto: o cadeado era original, sem sinais de arrombamento ou dano.

Ao chegar à casa de Ma Jialiang, a avó dele disse que ele fora ajudar na casa de Hong Qingsheng.

Fiquei surpreso: a esposa de Hong Qingsheng não havia morrido de modo inquietante? O caso assustara o vilarejo inteiro, todos evitavam a casa dos Hong; por que Ma Jialiang fora lá?

Cheio de dúvidas, fui à casa de Hong Qingsheng; de longe, vi muitos junto ao velho poço, todos ajudando, agora tomavam café da manhã.

Ao me ver, Ma Jialiang saiu da mesa e veio ao meu encontro:

– Chun Ge, você está bem? Ontem me assustou muito.

Por dentro, era um turbilhão, mas mantive o semblante calmo, perguntando o que houve.

Ma Jialiang disse:

– Ontem, ao voltar do hospital, você não disse uma palavra. Falei contigo, você não respondeu, só dirigiu. Me assustou muito.

– Eu voltei do hospital, dirigindo? – apesar de me preparar para isso, ouvir Ma Jialiang afirmar me fez estremecer.

Ele assentiu:

– Sim, e ao chegar em casa, foi direto para o quarto. Bati à porta, você não respondeu.

Meu coração era um mar revolto; algo estava fora de lugar. Minha experiência e a de Ma Jialiang eram contraditórias; embora me preparasse para isso, sentia a mente entorpecida.

Ou o ocorrido no bambuzal fora um sonho, ou Ma Jialiang estava mentindo!

Se era sonho, como explicar as marcas de corda?

Se Ma Jialiang mentia, como explicar a moto misteriosamente trazida de volta?