Capítulo Quarto O Inimigo

Kitab Ilahi Xiao Jinyu 3627kata 2026-03-12 14:31:00

O avô e o irmão haviam partido havia apenas meio dia e já lhes acontecera uma desgraça?
Impossível!
Ao longo destes anos, aqueles que o detestavam, os que o chamavam de agouro, mal tinham tempo de se esquivar de sua presença, quanto mais de conspirar para matar seu avô e irmão.
Seriam inimigos antigos?
Aqueles que, em tempos idos, massacraram mais de mil membros do clã Chen?
Mas, então, por que, tantos anos depois, não haviam simplesmente eliminado até a última raiz de sua linhagem? Por que esperar até hoje?
Chen Xi sentia o sangue e o qi revolverem-se em seu corpo, a cabeça latejando em dor quase insuportável, prestes a explodir!
Era como uma fera encurralada, enlouquecida, irrompendo porta afora, atravessando ruas, correndo em direção aos portões da cidade.
O avô e o irmão não poderiam estar mortos, não poderiam...
Ele gritava em desespero.
Naquela noite profunda, Songyan permanecia luminosa como o dia.
Luzes multicores pendiam por toda a cidade, resplandecendo como dragões de fogo serpenteando em meio ao bulício, grandiosas e vibrantes.
Nas ruas, uma multidão fluía incessante; fora dos portões, uma turba maciça se aglomerava.
No chão, jazia um ancião magérrimo, ossos salientes, as vestes manchadas de sangue, olhos cerrados — evidentemente morto há muito.
Ao lado dele, uma criança de onze ou doze anos se ajoelhava em silêncio: não havia lágrimas no rosto pueril, mas em seu olhar pairava um vazio cinzento, como um boneco sem alma.
— Eu o conheço, é Chen Hao, do Instituto Tianxing, colega de turma!
— Ah! Então é o irmão do agouro, e aquele velho deve ser o avô dele, não?
— Ai, certamente! O outrora célebre patriarca do clã Chen de Songyan, morto agora nos ermos fora da cidade... Que lástima!
...
As vozes se sucediam em murmúrios, mas ninguém se dispunha a ajudar. Afinal, um era irmão do agouro, o outro, seu avô; ninguém queria compartilhar sua má sorte.
— Saiam do caminho, rápido! O agouro está vindo!
Um grito estridente ecoou, e a turba, em sobressalto, abriu espaço como quem foge de uma víbora.
Sob os olhares estranhos dos presentes, uma figura magra irrompeu desvairada — Chen Xi.
— Avô!
Ao ver aquele corpo familiar, deitado serenamente no chão, toda esperança se esvaiu do coração de Chen Xi. A dor era tal que parecia ser trespassado por mil flechas; seu corpo tremia involuntariamente.
Aproximou-se, passo a passo, da cadáver do avô, o rosto frio e taciturno inalterado, mas os olhos, congestionados de sangue, ardiam como os de uma besta acuada.
— Irmão... — Uma voz rouca e conhecida soou, e Chen Xi estremeceu. Era Chen Hao, seu irmão, que o olhava como um autômato, olhos vazios e apagados.
Quem?
Quem fora o responsável?
A dor em seu peito se intensificava; as unhas enterravam-se nas palmas até escorrer sangue, mas ele não percebia.
Naquele instante, o ódio acumulado por anos irrompeu como lava, inundando-lhe o corpo.
Odiava-se — por ser tão impotente, por nada poder fazer contra as zombarias e o escárnio ao redor...
Ó céus!
Se desejais punir alguém, puni apenas a mim! Por que não poupais o clã Chen, meus pais, meu avô?

Por quê!?
Chen Xi rugia interiormente, à beira da insanidade.
Bum!
Chen Hao, incapaz de resistir por mais tempo, fechou os olhos e desmaiou nos braços do irmão.
Chen Xi fitou o irmão, viu na face infantil o cansaço e a impotência, e de súbito despertou de sua fúria: o avô se fora, não podia perder também o irmão.
Carregando o irmão às costas e trazendo o corpo do avô nos braços, entrou trôpego pelos portões da cidade, tomando o caminho de casa.
— O agouro finalmente se foi! Hahaha, que maravilha! Depois de tantos anos, matou mais uma vez o avô. Tsc, a má sorte persegue, é mesmo um amaldiçoado!
— Fale baixo, rapaz, quer morrer? Continue amaldiçoando o agouro e a má sorte vai recair sobre você também!
— Ora, você também o chama de agouro!
— Humpf, não vou discutir com você.
— Finja o quanto quiser, mas aposto que, no fundo, espera que o agouro acabe matando o irmãozinho também!
...
Caminhando, Chen Xi ouvia o zumbido das vozes acompanhando o vento cortante da noite — cada palavra uma agulha afiada, cravando-se fundo em seu coração.
Mas ele seguia, obstinado, como uma rocha castigada pelo mar, dor até o âmago, mas inflexível.
Entorpecido?
Não. Lembrar-me-ei para sempre deste instante.
Se eu não perecer, haverá um dia em que escalarei a escada celestial, subirei às nuvens, abraçarei os rios estelares, e pairarei acima de todos!
Vocês —
Podem continuar a zombar de mim.
...
Nos arredores da cidade, sob fina e ininterrupta garoa.
— Avô, descanse em paz.
Diante de um túmulo solitário, Chen Xi ergueu-se e murmurou, a voz calma, mas marcada por uma inflexível determinação.
Desde aquele dia, Chen Xi ajoelhara-se ali por três dias, sem comer ou beber, indiferente ao vento e ao sol, o rosto pálido e exaurido ao extremo.
Ao ver Chen Xi recuperar-se, Bai Wanqing, ao seu lado, suspirou aliviada:
— Vamos para casa, Chen Hao despertou do sono ontem à noite.
Chen Xi assentiu.
— Tia Bai, obrigado.
Ao se aproximarem de casa, Chen Xi parou, expressão solene, e agradeceu a Bai Wanqing. Nestes três dias, ela cuidara de seu irmão como se fosse da própria família, gesto que o comoveu profundamente.
Quando todos se limitavam ao escárnio, alguém se dedicava em silêncio a ajudá-lo — alguém assim merecia sua gratidão eterna.
Bai Wanqing pareceu surpresa com a formalidade do agradecimento, mas sorriu:
— Viva bem, viva melhor que todos — será a melhor forma de me agradecer.
Chen Xi assentiu novamente, solene.
Bai Wanqing sorriu, não se demorou mais e partiu.
Vendo sua silhueta graciosa desaparecer, um calor inesperado aflorou no peito de Chen Xi, dissipando parte da sombra em sua expressão.
— Irmão.

A porta se abriu. Chen Hao, do lado de dentro, chamou suavemente.
Chen Xi se aproximou e envolveu o irmão nos braços:
— Não importa ter perdido a mão direita. Enquanto houver vida, há esperança.
Naquela noite, o avô de Chen Xi fora assassinado, e Chen Hao perdera a mão direita — o braço destro fora destruído irremediavelmente, nem mesmo os mais sublimes remédios milagrosos poderiam restaurá-lo.
Chen Xi compreendia a dor do irmão: desde pequeno, este fora apaixonado pela arte da espada, jurando trilhar seu próprio caminho. Agora, sem a mão direita, tal sonho parecia sepultado para sempre — dor inimaginável.
— Irmão, já decidi: treinarei o caminho da espada com a mão esquerda!
Chen Hao ergueu a coluna, olhos brilhando de firmeza, como se renascido das cinzas:
— Perder a mão direita é, afinal, uma bênção. Uma mão, uma espada — poderei concentrar-me ainda mais, aprimorar-me ainda mais na arte da espada.
Chen Xi, vendo o irmão amadurecido de um dia para o outro, a chama de determinação nos olhos, não conteve a emoção:
— Ótimo! Ótimo! Ótimo!
Três vezes repetiu, extravasando a alegria incontida em seu peito.
...
— Fomos emboscados no Desfiladeiro do Lobo Azul, por três homens mascarados. Antes de morrer, o avô disse que todos eram cultivadores do Reino Zifu.
Após a refeição, Chen Xi começou a indagar o irmão sobre o ocorrido fora da cidade — queria descobrir quem assassinara o avô.
Mas, ao ouvir que os assassinos eram três praticantes do Reino Zifu, Chen Xi sentiu o coração estremecer.
No caminho da cultivação, os níveis são: Houtian, Xiantian, Zifu, Huangting, Liangyi Jindan, Nirvana, Minghua Zhenren e Pojie Dixian.
Houtian possui nove graus, onde se refina o qi interno e se fortalecem os meridianos, prolongando a vida por sessenta anos. Nesse nível, o corpo adquire força e vigor, o sangue torna-se caudaloso, e as doenças se dissipam.
Xiantian, também de nove graus, permite absorver os ares do céu e da terra, refinando o coração e a natureza, estendendo a vida por mais cem anos. Aqui, lava-se o corpo mortal, tornando-o receptáculo do espiritual — raros, porém, são os que conseguem alcançar tal nível.
No Reino Zifu, rouba-se a força do céu e da terra, abrindo-se o Palácio Púrpura no dantian. A cada avanço, uma nova estrela de verdadeiro qi surge no Zifu; ao reunir nove estrelas, atinge-se a perfeição.
Este nível, também chamado “dos que acendem as estrelas”, permite prolongar a vida por quinhentos anos — é o verdadeiro alicerce para trilhar o caminho da imortalidade.
Segundo o saber de Chen Xi, mesmo entre os praticantes Xiantian, abrir o Zifu é privilégio de um em mil, e na vasta Songyan, os cultivadores Zifu eram a elite absoluta. Saber que os assassinos do avô eram três tais praticantes deixou Chen Xi chocado.
Ele próprio só alcançara o terceiro grau de Xiantian, graças à orientação do avô, Chen Tianli, desde a infância.
Em tempos, o clã Chen fora poderoso em Songyan; Chen Tianli, patriarca, era cultivador de sete estrelas no Zifu — embora mais tarde tivesse perdido a força, jamais esqueceria o legado. Por mais mediano que fosse o talento de Chen Xi, sob tal tutela, atingir o Xiantian nunca fora problema.
Mas alcançar o Zifu parecia um sonho distante — há cinco anos estagnara no terceiro grau do Xiantian, sem promessa de avanço.
— Ah, lembrei! Tenho aqui um talismã de gravação sonora — gravei uma conversa dos três! — Chen Hao, de súbito, exclamou, retirando de dentro das vestes um talismã azul-escuro e entregando-o ao irmão.
O talismã de gravação era um artefato auxiliar do mundo dos cultivadores; ao saírem, costumavam deixar um em casa, para que amigos pudessem lhes deixar mensagens.
Este talismã fora criado por Chen Xi para o irmão brincar — jamais imaginara que teria tal utilidade. A perspectiva de ouvir a voz dos assassinos do avô deixou Chen Xi tomado de excitação.
Infundiu seu verdadeiro qi: uma luz azulada brilhou na superfície do talismã.
— O jovem mestre ordenou: mantenham-nos presos em Songyan, para que vivam sob o escárnio e desprezo dos demais, até se destruírem por si mesmos...
— Cerquem-nos por todos os lados; se tentarem sair, tragam-nos de volta! Este assunto envolve o jovem mestre e o casamento com a família Longyuan; falhar será punido com a morte!
A voz aguda e fria era como uma víbora sibilando nas sombras, ecoando do talismã.
Paf!
O talismã se desfez em poeira, dissipando-se no ar.
O rosto de Chen Xi tingiu-se de um azul-acinzentado.