Capítulo Três: Má Notícia
Chen Xi caminhava em silêncio pela estrada de volta para casa, absorto em seus pensamentos.
A partida do avô e do irmão mais novo não o entristecera em demasia; segundo sabia, o Clã das Mil Espadas de Longyuan era renomado em todo o Sul das Fronteiras, e as diversas academias estabelecidas na Cidade Songyan não poderiam jamais se comparar a ele.
Ao longo de milênios, com o aperfeiçoamento do sistema de cultivo, surgiram inúmeras novidades no caminho da prática, entre elas as academias.
Essas instituições, instaladas nas cidades e vilarejos, contratavam cultivadores eruditos para ensinar os mais variados conhecimentos fundamentais sobre o cultivo, lucrando com a cobrança de mensalidades.
Não havia restrição de público para as academias; fosse você camponês, escravo, comerciante abastado ou simples vendedor ambulante, bastava pagar as pedras de essência requeridas para ingressar e ali aprender.
As academias também eram de tipos os mais variados, divididas conforme sua especialidade.
Na cidade de Songyan, por exemplo, havia academias dedicadas à forja, manipulação de marionetes, confecção de talismãs, alquimia, cultivo de plantas espirituais, criação de bestas e outros saberes.
O irmão de Chen Xi, Chen Hao, estudava esgrima fundamental na Academia Estrela Celeste.
Todavia, as academias tinham suas limitações: o que transmitiam era, em essência, conhecimento básico e superficial. Quem almejasse atingir saberes mais elevados, precisava necessariamente adentrar um clã ou seita.
As seitas, por sua vez, eram regidas por grandes cultivadores e suas sedes se localizavam, quase sempre, em montanhas e vales impregnados de energia espiritual. Os critérios para aceitar discípulos eram extremamente rigorosos; sem um talento notável e fundações sólidas, ninguém passava nos exames de admissão. Por isso, nenhuma academia vulgar poderia se comparar a uma seita.
Chen Xi sabia bem quantas humilhações o irmão sofrera ao longo dos anos. Por sua causa, Chen Hao era ridicularizado pelas crianças da mesma idade como um pequeno “portador de má sorte”; ninguém queria aproximar-se dele, tampouco tinha um verdadeiro amigo.
Se agora pudesse entrar para o Clã das Mil Espadas, para o irmão apaixonado pela esgrima seria uma felicidade indizível, e um grande auxílio para seu crescimento.
O irmão tinha apenas doze anos, era dotado de grande inteligência e já atingira o mais alto estágio do cultivo pós-natal. Sob a orientação zelosa do avô, construíra bases sólidas; passar no exame do Clã das Mil Espadas não deveria ser problema.
Ao se aproximar de casa, Chen Xi avistou de longe uma garotinha de cinco ou seis anos, sentada à porta, apoiando o queixo nas mãos. Ela usava um penteado em coque alto, os olhos negros e brilhantes, o semblante encantador.
— Irmão Chen Xi, onde está o Hao? Eu trouxe os doces de lima que ele mais gosta, mas não consigo encontrá-lo — disse ela, correndo animada ao vê-lo.
A menina chamava-se Xixi, era vivaz e graciosa; não tinha pai e morava com a mãe, Bai Wanqing. As duas haviam se mudado para Songyan havia alguns anos e eram vizinhas da família de Chen Xi. Sempre mantiveram excelente relação.
— Ele viajou para terras distantes a fim de buscar um mestre e aprender sua arte. Temo que não voltará por alguns anos — respondeu Chen Xi, afagando-lhe a cabeça com carinho. No íntimo, também tinha grande afeto por Xixi. A pequena era alguns anos mais nova que seu irmão; sempre que Chen Hao retornava da academia, ela o seguia como uma sombra, trazendo-lhe doces e brincando com ele. Eram muito próximos.
Mais importante ainda, Xixi e sua mãe jamais desprezaram a família de Chen Xi, nunca o trataram como portador de má sorte. Essa confiança sem reservas era algo que ele prezava profundamente.
— Terras distantes? Onde é isso? — indagou Xixi, erguendo o rosto, confusa.
Chen Xi refletiu um instante e respondeu:
— Um lugar para onde não podemos ir. Mas, quando você crescer, poderá alcançá-lo.
Xixi murmurou um “ah”, cabisbaixa, mostrando-se desapontada.
— Que tal brincar em casa comigo? — sugeriu Chen Xi, tentando animá-la.
Os olhos de Xixi se iluminaram. — Sim! Quero ver você confeccionar talismãs!
— Venha comigo.
Ao vê-la recobrar a alegria, um sorriso perpassou, efêmero, pelos lábios de Chen Xi, logo substituído por sua expressão habitual, austera e reservada.
Tomando a mãozinha rechonchuda de Xixi, adentrou a casa.
...
Sobre a mesa repousava uma pilha de folhas de talismã em branco, de tom azul-esverdeado suave, uma tigela de tinta vermelha como sangue e um pincel escuro de caligrafia.
Chen Xi mantinha as costas eretas, sentado diante da mesa de madeira. Xixi, comportada, sentara-se num banquinho ao lado, os olhos grandes repletos de curiosidade.
— Estas são folhas de talismã de pinho, as mais baratas encontradas no mercado. Sua textura é rígida e os veios, ásperos; normalmente servem para confeccionar talismãs simples e básicos — explicou Chen Xi, apontando para as folhas.
Xixi, como uma aluna aplicada, assentiu vigorosamente:
— Irmão Chen Xi, está anotado!
Chen Xi sorriu de leve e balançou a cabeça. Apontando para a tigela de tinta, prosseguiu:
— Esta tinta é extraída do sangue do cervo de chama rubra, uma das bestas demoníacas de mais baixo nível no mundo do cultivo. Exceto pelo sangue, usado para preparar tinta de talismã, não há nada de valor em seu corpo. Nem mesmo os comerciantes especializados em criar bestas demoníacas se interessam por tal criatura inútil.
Xixi assentiu:
— E o pincel?
— É um pincel de talismã. Também há diferenças de qualidade entre eles. Um pincel de boa feitura traça linhas elegantes e uniformes, aumentando as chances de êxito na confecção do talismã. Este é apenas comum, mas, para mim, basta.
Ao terminar a frase, Chen Xi percebeu que, naquela noite, falara muito mais do que o habitual. Seria pela partida do avô e do irmão? Estaria usando Xixi como confidente involuntária?
Lançando-lhe um olhar, viu que a menina, sem que percebesse, adormecera sobre a mesa, um fio de saliva brilhando nos lábios.
Chen Xi lembrou-se do irmão, quando pequeno, dormindo do mesmo modo, e sentiu o coração aquecer-se. Com cuidado, tomou Xixi nos braços, deitou-a em sua cama e cobriu-a com a colcha. Só então voltou à mesa.
Sem mais delongas, pegou o pincel, mergulhou-o na tinta e iniciou a escrita dos talismãs.
Ssshh... O pincel, saturado de tinta vermelha, deslizava suavemente pela folha em branco. Linhas rubras, finas, brotavam da ponta com vida própria, serpenteando com graça pela superfície azul-esverdeada do papel, formando padrões intricados e harmoniosos.
Durante a confecção dos talismãs, Chen Xi se mostrava sério e absorto. Os olhos fixos no papel, as costas retas como uma lança apontada ao céu, o braço direito suspenso imóvel, tal qual um ramo vigoroso emergindo de uma fenda na rocha, inabalável.
O que se movia era apenas o pulso direito!
Com destreza extrema, controlava o pincel, traçando, pontilhando e deslizando sobre o papel numa cadência fluida e natural, sem o menor sinal de hesitação, como se fosse um riacho cristalino a cantarolar entre as pedras.
Quando, enfim, um padrão complexo e misterioso floresceu como uma flor sobre o papel, a folha brilhou intensamente por um instante, antes de voltar ao normal.
Sem sequer olhar, Chen Xi colocou de lado o talismã de Nuvem de Fogo de primeiro grau e apanhou outra folha em branco, voltando ao trabalho sem desperdiçar um segundo sequer.
Cinco anos antes, o avô, Chen Tianli, destinara suas últimas economias para que Chen Xi estudasse numa academia de confecção de talismãs. Assim que dominou a criação do talismã básico de primeiro grau, a confecção de talismãs tornou-se o único sustento dos três membros da família.
Contudo, Chen Xi só sabia produzir talismãs de primeiro grau; as técnicas ensinadas na academia não iam além disso. Para aprender técnicas superiores, era preciso comprar livros caríssimos, um custo completamente fora de seu alcance.
Ainda assim, Chen Xi sentia-se satisfeito.
No início, conseguia confeccionar apenas cinco talismãs por dia. Hoje, já era capaz de produzir trinta; convertendo-os em pedras de essência, rendiam dez unidades, o suficiente, em tempos antigos, para manter a subsistência da família e garantir ao irmão o estudo da esgrima.
Agora, com o avô e o irmão seguindo para o Sul das Fronteiras, restava-lhe apenas a si mesmo. Se economizasse nas despesas, em pouco tempo conseguiria acumular muitas pedras de essência, tornando viável a compra de livros de técnicas superiores.
Naturalmente, antes disso, precisava quitar a dívida de cem pedras espirituais que devia ao Tio Zhang.
O tempo escorria silenciosamente. No quarto apertado e mal iluminado, Chen Xi trabalhava absorto, os movimentos fluidos e habilidosos, todo o seu ser imerso num estado de esquecimento de si. Assim, a pilha de folhas em branco transformava-se, pouco a pouco, em talismãs de padrões intricados e misteriosos.
Huu...
Ao terminar o último talismã, já era noite. Chen Xi repousou cuidadosamente o pincel sobre o tinteiro, soltando um longo suspiro. O cansaço profundo estampava-se em suas feições já magras, tornando-o ainda mais pálido.
Com seu cultivo no estágio intermediário do Nascituro, a energia vital em seu corpo mal lhe permitia confeccionar trinta talismãs de primeiro grau. Produzir mais do que isso só seria possível ao avançar de nível e aumentar a energia vital.
Mas, apesar de parecer simples, tal avanço era extremamente difícil para Chen Xi.
Seu talento não era medíocre, e a técnica ancestral da família, o “Método da Nuvem Púrpura”, tampouco era vulgar. No entanto, seu avanço estagnara no estágio intermediário do Nascituro havia cinco anos, sem o menor progresso.
Por isso, o avô, Chen Tianli, depositara todas as esperanças em Chen Hao, e a ele coubera aprender a confecção de talismãs...
Seria mesmo por ser demasiadamente inepto?
Não fora uma única vez que Chen Xi questionara e negava a si mesmo. A luta interna, a confusão, a dor e a frustração, apenas ele conhecia verdadeiramente.
Toc, toc, toc!
Soou uma leve batida à porta, acompanhada de uma voz feminina, suave e melodiosa:
— Chen Xi, Xixi está aí com você?
Despertando de seus devaneios, Chen Xi abriu a porta e deparou-se com uma mulher de feições delicadas. Vestia-se modestamente, mas nada disso escondia sua elegância natural. Era Bai Wanqing, mãe de Xixi.
— Tia Bai, Xixi adormeceu — disse Chen Xi.
Bai Wanqing suspirou aliviada e sorriu:
— A pequena não te atrapalhou, espero. Vou levá-la para casa.
Chen Xi balançou a cabeça.
Sabendo que ele era de poucas palavras, Bai Wanqing sorriu, tomou a filha nos braços e se retirou.
Entretanto, pouco depois, a porta voltou a ser golpeada, desta vez com urgência, num ritmo apressado.
Chen Xi franziu o cenho e abriu a porta mais uma vez. Era Bai Wanqing, de volta, o rosto tomado de ansiedade.
O que teria acontecido?
Antes que pudesse perguntar, Bai Wanqing exclamou apressada:
— Rápido! Vá até fora da cidade! Parece que aconteceu algo com seu avô!
O quê?
Algo com o avô?
Chen Xi sentiu um baque na mente, como se fosse fulminado por um raio.
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Capítulo dois. À noite haverá mais.
E um adendo: esta obra não é um romance de sofrimento; daqui por diante, será muito satisfatório, isso posso garantir.