Capítulo Sete: Kamitani Asukawa Deseja Conquistar
Ashitakawa fingiu ponderar, mergulhando em silêncio contemplativo.
Estaria ele avaliando se deveria ou não ingressar?
Naturalmente, não. Desde o momento em que lançara o olhar da Percepção Profunda sobre as informações pessoais de Yamazaki Ai, já decidira juntar-se ao Clube de Kyūdō.
Tudo por causa da missão pessoal de Yamazaki Ai.
O primeiro requisito de sua estratégia era justamente ingressar no clube de arco e flecha e elevar o grau de afinidade.
Agora, completara metade da tarefa; quanto à outra metade, ela própria viera lhe estender o convite.
Mas Ashitakawa não aceitaria de imediato.
Antes de decidir empregar todos os seus atributos para “seduzir” Yamazaki Ai e concluir sua conquista, havia algo que precisava confirmar.
— Yamazaki-senpai, embora já tenha uma resposta em mente, permita-me perguntar-lhe mesmo assim.
Ashitakawa fitou os olhos de Yamazaki Ai e perguntou solenemente:
— Senpai, você tem namorado?
Yamazaki Ai ficou atônita, surpresa com a indagação inesperada de Ashitakawa.
— Não, não tenho.
— E há algum rapaz de quem goste? Alguém cuja simples lembrança lhe traga felicidade, que inspire em você sentimentos positivos e elevados?
— Também não… Kamiyama-kun, por que pergunta isso?
Kamiyama Ashitakawa ponderou longamente, mas por fim optou pela honestidade; não via motivo para ocultar tais coisas.
— O verdadeiro autocultivo de um homem consiste em não se aproximar de uma moça comprometida, seja em namoro ou em segredo. Pode considerar que é este o fundamento da minha perfeição.
Palavras tão narcisistas e audaciosas saíram de seus lábios, mas o tom era de absoluta seriedade.
E foi justamente essa autoconfiança solene que tornou o momento constrangedor para quem o ouvia.
Talvez outros rissem da arrogância de Ashitakawa, mas não Yamazaki Ai.
Por conta de sua habilidade, ela sabia que Ashitakawa falava com sinceridade.
Alguém hábil na arte da mentira jamais poderia ser perfeito; logo, suas palavras não eram engano.
Assim, ela preferiu acreditar que parte da perfeição de Ashitakawa residia em sua confiança e em seu rigor moral.
Ainda que, admitisse, aquilo soasse um tanto presunçoso.
— Kamiyama-kun, você é mesmo uma pessoa interessante; é o primeiro a dizer algo tão leviano e narcisista sem despertar em mim qualquer repulsa. Fique tranquilo, não nutro sentimentos por ninguém. Pelo contrário, espero sinceramente que surja alguém capaz de ajudar-me a sair deste atoleiro.
Ashitakawa assentiu, indicando que compreendera:
— Muito bem, aceito o convite, senpai. Em breve irei ao setor de inscrições preencher o requerimento. Espero poder contar com sua orientação de agora em diante, presidente Yamazaki.
— Melhor chamar-me apenas de senpai; presidente me soa excessivamente formal.
Ele estendeu a mão direita.
Yamazaki retribuiu o gesto.
A delicada e suave palma de sua mão, tão leve quanto uma nuvem, encerrava toda a doçura do mundo.
No entanto, calos discretos denunciavam as agruras do treino diário no kyūdō.
Ao tocar suavemente aqueles calos, Ashitakawa sentiu como se roçasse o anseio de Yamazaki, por trás do invólucro endurecido, de experimentar, como qualquer outra jovem, o doce sentimento do amor.
Esta era uma jovem que precisava ser resgatada.
Ashitakawa sorriu, tomando sua decisão interior.
Ele aceitaria a missão do sistema: conquistar Yamazaki Ai.
Após despedir-se de Yamazaki-senpai, encontrou sem dificuldade Hanyū Ryōsuke no ponto mais movimentado do campus.
Hanyū Ryōsuke, com um bentō recém-adquirido no refeitório, agachava-se num recanto discreto da praça, observando atentamente a multidão — à primeira vista, parecia um pequeno delinquente. Eis por que seu carisma, desprovido do respaldo financeiro, mal ultrapassava 70 pontos.
Por mais que Ashitakawa quisesse preservar a reputação outrora límpida do amigo de infância, Ryōsuke não colaborava nem um pouco.
Com aquela postura suspeita, como não despertar desconfiança?
A julgar pela aparência, quem acreditaria que aquele era o segundo filho do Grupo Hanyū?
— Ryōsuke, ao menos evite agachar-se assim; fica ainda mais duvidoso.
— Meu caro amigo, ficar em pé cansa. Você acha que todos são como você, reencarnação de um gorila? Ainda não entendo como um gorila reencarnado pode ter abdômen definido.
— …
— Onde esteve agora há pouco?
— Estive um tempo com Yamazaki-senpai — diante do amigo, Ashitakawa pouco tinha por ocultar; não havia necessidade de segredos.
Bastava conviver tempo suficiente ao seu lado para que tudo viesse à tona; mentir era inútil.
— Eu imaginei — Ryōsuke, com um osso de frango entre os dentes, fitava uma garota distante. Notou que o modo dela andar sugeria pés chatos.
Quanto ao fato de Ashitakawa ter passado o almoço de primavera com a segunda colocada no ranking das musas da escola, a “Narcisa de Gelo”, nem mesmo se surpreendia.
Desde o ginásio eram inseparáveis; Ryōsuke conhecia bem o amigo. Se Ashitakawa decidia que alguém precisava de sua ternura, não havia garota capaz de resistir ao seu magnetismo.
Se ao lado de Ryōsuke tudo acabava desvendado, ao lado de Ashitakawa todos acabavam enfeitiçados.
Homens ou mulheres, não importava; Ryōsuke era prova viva disso.
Ashitakawa, esse maldito, era irresistível.
— Creio que Yamazaki-senpai é do tipo que precisa ser salva. “A pétala caída não é insensível, mas transforma-se em húmus para proteger a flor.”
— Belo verso, é de sua autoria?
— É um antigo poema chinês… Mas julgo que minha pena não deixa a desejar frente à de Natsume Sōseki.
— Ora… Xiao Ming, entre para o clube de literatura. Essa frase deveria figurar no jornal da escola para todo o colégio rir de você, não apenas eu.
— Se eu te acertar um soco, talvez chores por horas.
— Tosse… Natsume Sōseki é modesto demais, melhor Shakespeare.
— Eis o meu verdadeiro amigo!
Hanyū Ryōsuke lançou o osso limpo na marmita, transformando-a em lixo orgânico.
— Aposto que agora vais ao setor de inscrições do clube de kyūdō entregar teu formulário, não é? — Ryōsuke lançou um olhar ao bolso direito de Ashitakawa, onde ele guardava dois formulários de inscrição.
— Sim, acabei de pegar os formulários em branco; trouxe um para ti também — Ashitakawa estendeu um deles ao amigo.
Ryōsuke coçou a cabeça:
— Será que essa sintonia nossa não está tomando rumos… inomináveis?
Disse-o porque também precisava preencher um formulário para ingressar no clube de esgrima, e tinha certeza de que Ashitakawa lhe traria um, poupando-lhe o trabalho de buscar outro.
Ashitakawa, já prevendo a preguiça do amigo, pegara dois.
Nenhuma palavra fora trocada previamente, tudo resultado de pura compreensão mútua.
— Fica tranquilo, não saio perdendo nisso — Ashitakawa deu de ombros. Afinal, conquistar Ryōsuke valia cem mil pontos de recompensa, suficiente para trocar pelo “Certificado de Graduação da Inocência”. De qualquer ângulo que visse, era vantagem.
— Droga! A partir de amanhã, vá ao clube de kyūdō atrás da Yamazaki-senpai e fique longe de mim; vou ser residente permanente do clube de esgrima! — Ryōsuke estremeceu, horrorizado. Vai ver, ele estava mesmo falando sério!
— Na verdade, acho que você vai perder ainda mais rápido no clube de esgrima; está se entregando de bandeja — Ashitakawa respondeu com um sorriso ambíguo.
— As margaridas parecem prestes a desabrochar.
Ryōsuke: “???”
— Por que sinto um arrepio nas costas?