Capítulo Oito: O Inesperado, o Verdadeiro Amor
“Não é possível, chefe, dá uma trégua pra gente, vai.”
Ao ouvir o lamento de Tu Maolin, todos no dormitório se viraram e viram que Jiang Qiye já tirava do fundo da mochila os exercícios que o velho Chen lhe dera, resmungando, inconformados.
Corre entre os alunos do terceiro ano um ditado: ‘Prova grande, grande folga; prova pequena, pequena folga; melhor de tudo é quando não tem prova alguma.’ A prova mensal mal terminara, e eles ainda agora combinavam um passeio no fliperama para relaxar no dia seguinte. Não esperavam que Jiang Qiye, essa criatura obstinada, já estivesse de novo mergulhado nos estudos.
“Passem uma Coca pro chefe.”
Tu Maolin desceu da cama e entregou a Jiang Qiye uma garrafa de Coca-Cola, perguntando, fingindo desinteresse: “Como é que você sabia que o outro livro era mais fácil?”
“Ah, esses dois livros fui eu que recomendei pro velho Chen.”
Jiang Qiye respondeu com indiferença, mas mal acabou de falar sentiu a atmosfera pesar. Ao levantar os olhos, viu Tu Maolin e Li Hao cerrando os dentes e se aproximando lentamente; sim, Li Hao também fora premiado pelo velho Chen.
“Ah!”
Um grito pungente ecoou pelos ares, e a lua, constrangida ante tal cena, escondeu-se silenciosamente por trás das nuvens.
Na manhã seguinte, muitos alunos internos, há mais de um mês longe de casa, preparavam suas malas para retornar.
Jiang Qiye também se levantou cedo. Ao sair dos portões da escola, dirigiu-se à estação de metrô e embarcou na Linha 3.
Sua família era originária do centro de Jiangjin, e ele costumava ser aluno externo. Desde a tragédia familiar, porém, solicitara vaga no internato, passando as férias na casa da tia, que morava no centro de Shancheng, longe da escola. Após mais de dez estações de metrô, trocou para o ônibus.
Quase duas horas depois, desceu e percorreu ruas que lhe eram levemente estranhas até a porta da casa da tia. Diante do portão vermelho, hesitou um instante, suspirou e bateu.
Toc, toc, toc.
Alguns minutos depois, uma menina de rabo-de-cavalo alto e pijama estampado de desenhos animados abriu a porta. Ao ver Jiang Qiye do lado de fora, exclamou, jubilosa:
“Mano, você voltou!”
Jiang Qiye sentiu um aperto no peito ao encarar a prima, que sempre fora muito apegada a ele.
“Sim, só você está em casa?”
Liao Shuxu apressou-se em abrir passagem, colocando os chinelos de Jiang Qiye diante da porta.
“A mamãe saiu cedo, e os pais ainda não voltaram do trabalho. Só estou eu.”
“Já comeu?” perguntou Jiang Qiye, trocando os sapatos e entrando, distraído.
Liao Shuxu lançou um olhar ao relógio da sala e resmungou:
“Você se refere ao café da manhã ou ao almoço?”
Jiang Qiye conferiu as horas: pouco passava das nove. Coçou a cabeça, embaraçado.
“Quando a tia e o tio costumam chegar?”
“Por volta das onze e meia.” Liao Shuxu foi até a cozinha: “Quer alguma fruta? Eu lavo pra você.”
Ao ver a prima espreitando da cozinha, Jiang Qiye sentiu um calor suave invadir o peito. Sua tia e o tio, ambos professores do ensino fundamental, haviam consumido toda a poupança para comprar um apartamento na cidade. Quando a família de Jiang Qiye enfrentou a crise, praticamente doaram tudo o que tinham para ajudá-los a saldar as dívidas.
“Deixa que eu faço isso.”
Um sorriso desenhou-se no rosto de Jiang Qiye. Arregaçando as mangas, entrou na cozinha para ajudar Liao Shuxu a lavar as frutas.
“Mano!”
Liao Shuxu, vendo o primo lavando as frutas com tamanha dedicação, o chamou de repente.
“O que foi?” Jiang Qiye virou-se, intrigado.
“Seu sorriso é mesmo bonito.”
Jiang Qiye olhou demoradamente para Liao Shuxu; sentiu uma pontada de melancolia. Na vida anterior, quando todos já haviam perdido as esperanças em relação a ele, apenas aquela prima ainda se preocupava, sem jamais abandoná-lo até o instante em que ele partiu.
Depois de lavar as frutas e entregá-las a Liao Shuxu, Jiang Qiye abriu a geladeira e percebeu que não havia mais legumes. Virou-se para a sala.
“A geladeira está vazia, vou comprar alguns legumes. Vem comigo?”
Vendo o primo disposto a sair, Liao Shuxu apressou-se em cuspir as sementes de uva, calçou os chinelos e correu para o quarto, espiando pela porta:
“Me espera trocar de roupa.” E fechou a porta num estalo.
“É só pra comprar legumes, não vai se maquiar, hein?”
“Tô sabendo!”
Poucos minutos depois, Liao Shuxu saiu, correu de chinelos até a janela do living, examinou-se ao espelho e, satisfeita, dirigiu-se a Jiang Qiye, que esperava à porta.
“Não esquece a chave”, advertiu Jiang Qiye, ao ver que a prima deixara o chaveiro com pingente de desenho animado em cima da mesa de centro.
“Ah, tá.”
Chave em mãos, Liao Shuxu calçou os sapatos e saiu.
“Mano, a gente não vai ao supermercado?”
Liao Shuxu estranhou a direção que Jiang Qiye tomava, que não levava aos supermercados do bairro.
“Os preços no supermercado são altos e os legumes, nem frescos. Vamos ao mercado municipal. É mais barato.”
Liao Shuxu olhou surpresa para o primo. Para ela, comprar no mercado era arte da geração da avó.
Após meia hora de caminhada, chegaram ao mercado, que fervilhava de vozes e pregões.
Logo ao entrar, o cheiro peculiar do ambiente fez Liao Shuxu franzir o cenho, mas seguiu Jiang Qiye até a ala de legumes.
Talvez por ambos terem aparência estudantil, os feirantes, presumindo que não sabiam pechinchar, começaram a chamá-los com entusiasmo.
Liao Shuxu observou que o primo ignorava todos, indo cada vez mais para o fundo.
“Mano, por que não compramos aqui fora?”
“Os bancas da entrada cobram mais caro. E como nós dois não sabemos pechinchar, melhor ir ao fundo, onde sai mais em conta.”
Jiang Qiye dirigiu-se então a um canto de vendedores improvisados:
“Tio, quanto está o almeirão?”
“Dois yuans o quilo. Estou quase fechando. Se levar tudo, faço por um e meio.”
“Certo, fico com tudo. Pode pesar.”
······
Liao Shuxu, como espectadora, via Jiang Qiye mover-se com destreza pelo mercado. Em pouco tempo, ele já estava com as sacolas cheias de legumes.
“Tem carne em casa?”
Ao ser questionada, Liao Shuxu respondeu depressa:
“Ainda tem na geladeira.”
“Ótimo, então vamos.”
“Deixa que eu carrego.” Liao Shuxu estendeu a mão, querendo dividir o peso.
“Não precisa. Não é pesado.”
Jiang Qiye recusou sem se importar.
Voltaram juntos para casa, já quase onze horas. Jiang Qiye trocou de sapatos e foi logo para a cozinha preparar o almoço.
O tempo que Jiang Qiye passara vivendo sozinho o obrigara a aprender toda sorte de habilidades domésticas, de comprar legumes a cozinhar. Liao Shuxu também lavou as mãos, pronta a ajudar.
Logo, pratos e mais pratos saíam da cozinha, exalando aromas que logo inundaram a casa.
Naquele instante, enquanto trazia o último prato, Jiang Qiye ouviu a chave girar na porta. Virou-se e, de súbito, o corpo inteiro estacou – a figura que povoava seus sonhos apareceu diante dele.
“Mãe!”
Ainda que houvesse sonhado com aquele reencontro milhares de vezes, ao ver a mãe de fato, não conteve o nó na garganta.
“Xiaoye, não é porque vocês estão de férias? Seu tio foi especialmente me buscar.”
He Hui, embora feliz ao ver o filho, mantinha-se reservada. O peso das últimas semanas era grande, e sua esperança se depositava naquele filho.
“Tia, tio.”
“Xiaoye, foi você quem preparou toda essa comida?”
Mal entrou, He Min avistou a mesa repleta de pratos e exclamou, surpresa. Conhecia bem a filha, que, se não era completamente inepta na cozinha, jamais teria feito tamanho banquete.
“Mãe, eu também ajudei, viu?” protestou Liao Shuxu, incomodada com a observação.
Por fim, entrou o tio, Liao Bangyou, de óculos de armação preta e corte militar, exalando ares de intelectual refinado.
Jiang Qiye sempre gostara do tio, homem de vasta erudição, com quem as conversas eram sempre agradáveis.
“Vamos lavar as mãos e almoçar.”
Liao Bangyou, trocando os sapatos, foi lavar as mãos antes de sentar-se à mesa.
“A propósito, Xiaoye, está tendo dificuldades nos estudos?”
He Hui observou o filho discretamente antes de perguntar. Ela sabia das notas na última prova mensal e temia que Jiang Qiye, abalado pelo ocorrido com o pai, se deixasse afundar.
“Não, fui muito bem na prova. Aliás, mãe, nos próximos dias talvez eu participe da olimpíada de matemática, lá no Colégio Número Um de Shancheng.”
O olhar cauteloso da mãe fez Jiang Qiye sentir um aperto no peito; nunca percebera esses detalhes em sua vida anterior.
“Ah, é verdade, seu professor também me mandou mensagem.”
“Olimpíada de matemática?” O tio, Liao Bangyou, interveio. “Se o professor escreveu pra sua mãe, é porque você está indo bem em matemática.”
Liao Bangyou era professor de língua chinesa no mesmo colégio, mas entendia um pouco de olimpíadas. Pensando nas notas da filha, não resistiu e comentou:
“Você devia aprender mais com seu primo.”
“Mas vocês dois são professores de chinês! Isso é genética!”
Liao Shuxu protestou:
“Além disso, como professores dedicados, vocês sabem que esse negócio de ‘filho dos outros’ é método de ensino errado, e mesmo assim usam comigo!”
As palavras de Liao Shuxu deixaram o pai sem resposta.
“Ei, não pode retrucar assim, menina”, repreendeu He Min, ao ver a cena.
Com o pai ela até ousava discutir, mas com a mãe, jamais:
“Tá bom, tá bom, vocês são o verdadeiro amor, eu sou só um acidente.”