008 O infortúnio da Senhorita Ren
Apesar de já ter assistido ao filme, Liu Feng ainda assim não conseguia recordar o rosto da senhorita Ren, apenas lhe vinha à mente a silhueta bem delineada, com curvas pronunciadas e elegantes.
— Prima, o que a traz aqui? — Awei foi o primeiro a pousar o copo e erguer-se, chamando um dos criados do restaurante para trazer outra cadeira.
— Imagino que a senhorita Ren esteja enfrentando algum infortúnio, não? — Assim que percebeu o abatimento estampado no semblante da jovem recém-chegada, o Nono Tio foi quem primeiro lhe dirigiu a palavra.
— Merece mesmo o título de Nono Tio, com um só olhar já percebeu a minha situação — respondeu a senhorita Ren, sem aparente surpresa no rosto; afinal, o Nono Tio vivia dessa arte, e se nem isso fosse capaz de notar, ela tampouco teria vindo procurá-lo.
Enquanto toda a atenção recaía sobre a senhorita Ren, Liu Feng aproveitou-se para, sorrateiramente, arrancar para si uma coxa de frango e levá-la à boca. O desjejum fora à base de frituras, por isso aquele era o primeiro pedaço de carne provado desde que renascera naquela época.
Que delícia!
Quanto ao que teria acontecido à senhorita Ren, Liu Feng não se importava muito. O espesso negrume pairando sobre sua testa denunciava um enrosco de grandes proporções, e ele não pretendia se envolver.
— O negrume em sua fronte, senhorita Ren, está deveras espesso; o problema que a aflige há de ser gravíssimo, não? — indagou o Nono Tio.
— Sim, Nono Tio, eu... eu vi meu pai! — respondeu ela, a voz trêmula.
— O quê? — Todos os presentes ficaram atônitos, quase sem respirar, de forma que o único som audível na sala era o de Liu Feng roendo a coxa de frango.
Ninguém, contudo, pareceu se importar com o furto da coxa, pois as palavras da senhorita Ren eram de arrepiar!
Exceto Liu Feng, todos ali haviam presenciado a tragédia ocorrida à família Ren. E o senhor Ren morrera naquela ocasião, tornando-se um cadáver ambulante, sua alma conduzida ao mundo inferior sob a supervisão direta do Nono Tio — não havia margem para erro.
Afinal, quem, então, teria visto a senhorita Ren?
— Foi assim: três dias atrás, ao regressar do trabalho, encontrei as luzes de casa acesas! Nono Tio, primo, bem o sabeis: após aquela tragédia, vendi todos os bens da família, comprei uma casa modesta e despedi os criados. Portanto, não haveria de haver viva alma em minha residência!
Meu primeiro impulso foi pensar num furto; então, permaneci à porta e, devagar, espreitei pela fresta.
Era noite, o pátio mergulhado em trevas, e nada pude ver com nitidez. Mas, pelo porte, reconheci: era meu pai, no centro do pátio, a praticar movimentos de kung-fu!
Tapei a boca com a mão para conter um grito, mas meus olhos não desgrudavam daquela figura.
De repente, uma luz intensa atravessou a fresta, como se, em plena luz do dia, alguém refletisse o sol com um espelho — ofuscou-me os olhos.
Sem alternativa, afastei-me um instante, esfreguei os olhos, e, ao sentir-me melhor, voltei a espiar. Mas, ao mirar o centro do pátio, a figura sumira. As luzes da casa, contudo, permaneciam acesas.
Pensei que talvez tivesse ido para o interior, e já buscava a chave para abrir a porta, quando, de súbito, um olho vermelho apareceu na fresta — a pupila negra fitando-me diretamente... —
Ao chegar a este ponto, a senhorita Ren não conteve um estremecimento e o medo aflorou-lhe no rosto.
— Não tema! — O Nono Tio mordeu a ponta do próprio dedo indicador direito e, com ele, tocou o centro da testa da jovem, buscando acalmar-lhe o espírito.
— Só nesta manhã, quantas vezes já não feriu o dedo, Nono Tio? Não lhe dói? — Liu Feng, ao ver o gesto se repetir, não conteve um arrepio.
Serenada a emoção, a senhorita Ren prosseguiu:
— Ao ver aquele olho vermelho, recuei dois passos, assustada. Queria correr ao posto policial em busca de meu primo, mas, não sei por quê, uma força estranha impeliu-me a tirar a chave e abrir a porta.
Dentro, não havia pessoa alguma, tampouco olhos vermelhos. Pensei, então, estar exausta, vítima de alguma alucinação. Mas o clarão da luz elétrica acesa indicava-me que não fora ilusão — era real!
Criei coragem e entrei. Foi quando vi meu pai sentado à mesa redonda da sala, bebendo aguardente e roendo uma coxa de frango...
Ao lado, Liu Feng, que acabava de engolir um naco de frango com uma dose de aguardente, sentiu-se, de súbito, atingido.
— Ao ver-me entrar, meu pai disse: ‘Minha filha querida, voltou? Trabalhou um dia inteiro, está cansada?’ Por um instante, senti como se ele jamais houvesse morrido, como se sempre estivesse ali, ao meu lado.
Mas a razão logo me disse: meu pai está morto, fui eu mesma quem enterrou suas cinzas. Então, quem era aquele diante de mim?
Por mais que eu perguntasse, ele insistia ser meu pai, sempre querendo saber se me sentia mal, se havia algo de errado comigo.
Quis sair para procurar o senhor, Nono Tio, para averiguar se aquele homem era mesmo meu pai. Mas ele não me deixou ir, dizendo que fazia muito tempo que não me via, que eu deveria descansar uns dias em casa, sem trabalhar. Não tive escolha senão anuir, enquanto tramava meios de fugir em segredo.
Contudo, toda vez que eu tentava pular o muro, ele surgia atrás de mim, chamando-me num tom gélido e perguntando para onde eu ia. Só me restava voltar à casa e ouvir suas histórias.
Até que, há cerca de uma hora, finalmente encontrei oportunidade para escapar e fui direto à sua casa, Nono Tio, mas o senhor não estava. O jovem que mora diante da sua porta disse-me que o senhor estava aqui, no Salão da Garça Amarela, e vim imediatamente... O que houve? Por que todos me olham assim?
A senhorita Ren estava prestes a contar quantas léguas percorrera até chegar ao restaurante, mas notou que todos a fitavam com um olhar estranho. Até mesmo o jovem que devorava a coxa de frango parou o gesto, encarando-a, perplexo.
— Senhorita Ren, tem certeza de que foi o jovem que mora na porta à frente quem lhe disse que eu estava aqui? — perguntou o Nono Tio.
— Tenho sim! — respondeu ela convicta. — Ele saiu diretamente da porta do outro lado.
— Senhorita Ren, olhe para mim. O jovem que viu, parece-se comigo? — Liu Feng apontou para o próprio rosto, os dedos ainda engordurados.
— Você... era você! — O rosto da senhorita Ren mudou de cor, tomada de espanto. — Mas como você...?
Liu Feng e o Nono Tio trocaram um olhar significativo, ambos percebendo o peso que se abatia sobre a situação.
— Não tem um irmão gêmeo, tem? — provocou o Nono Tio, já sabendo a resposta.
— Parece que eu saberia disso? — murmurou Liu Feng, baixinho.
O Nono Tio assentiu. Um recém-chegado, que habitava um corpo emprestado, como poderia conhecer os meandros da família daquele a quem substituía?
A senhorita Ren também percebeu algo errado, e seu corpo começou a tremer. — Então o que foi aquilo que vi?
— Não nos aprofundemos nisso agora. O mais importante é resolver o problema de seu pai — atalhou Liu Feng, como se subitamente tivesse entendido algo.
O Nono Tio não insistiu. Sabia que Liu Feng já intuía a identidade do ser que habitava aquela casa, então voltou-se para a jovem:
— Senhorita Ren, sente-se e alimente-se. Se aquele ser que está em sua casa não pretende fugir, não importa a hora em que cheguemos, ele lá estará. Mas se quiser escapar, com o tempo que já passou desde sua saída, já teria partido. Portanto, coma algo, recupere as forças.
— Obrigada, Nono Tio, mas não consigo comer nada.
— Deveria aceitar um pouco, não desperdice a boa vontade do Nono Tio. Aqui, aceite uma coxa de frango! — Liu Feng, de súbito, mostrou-se gentil, o que intrigou o Nono Tio.
Ainda há pouco mostrava completo desinteresse, e agora demonstrava tamanha solicitude? Era impossível decifrar os pensamentos daquele jovem!
Resignado, o Nono Tio ordenou que Qiu Sheng servisse chá à senhorita Ren. Para tais gentilezas, Qiu Sheng era sempre solícito, sem jamais reclamar.
— Desculpe, Nono Tio, não tomo chá.
— Eu já sabia! — Liu Feng assumiu ares de quem tudo conhece. — Ela estudou no exterior, deve preferir café! Qiu Sheng, vá à cafeteria e traga-lhe um café!
— Mas... — hesitou Qiu Sheng.
— Vá logo! — ordenou o Nono Tio.
Ainda que não soubesse o que Liu Feng pretendia, resolveu apoiá-lo.
— Não é preciso, Nono Tio. Qiu Sheng, sente-se.
— Não tem problema, eu vou mesmo! — exclamou Qiu Sheng, saindo apressado rumo à cafeteria.
No salão, além do consolo de Awei à prima, só se ouvia o ruído dos talheres.
Liu Feng devorava a coxa de frango, mas sua mente fervilhava.
A senhorita Ren dissera tanto, mas por que não explicava como conseguira escapar?