Capítulo Seis: A Aposta
— “Bip!”
Um som cristalino ressoou, a carteira de estudante descontou quarenta e sete reais. Li Shiqing carregava, radiante, uma bandeja transbordante de comida, e, com alegria, agradeceu a Ye Yiyun:
— Obrigada!
Ye Yiyun sorriu com indiferença:
— Não foi nada.
Assim dizendo, voltou-se e encaminhou-se para um lugar vazio à direita. Observando a serenidade em seu semblante e, ao baixar os olhos para o próprio prato, Li Shiqing começou a conjecturar. Supôs que Ye Yiyun não apreciara o fato de ela gastar tanto e apressou-se em segui-lo, falando baixo:
— Você está chateado? Amanhã eu pago para você, que tal?
Ye Yiyun prosseguiu sem desacelerar o passo. Inclinou levemente a cabeça, encarando por dois segundos aqueles olhos vivazes, de cervo, e perguntou:
— O manual do estudante, você leu quanto?
— Hein? Que manual? — Li Shiqing ficou confusa, devolvendo a questão.
Ye Yiyun deteve-se, fitando o horizonte, depois voltou-se para Li Shiqing:
— Você gosta muito de carne?
Li Shiqing, sem compreender o motivo, assentiu sorrindo:
— Uhum.
— Muito bem. Observe atentamente todos os estudantes na área de refeições. Se perceber algo peculiar, conte-me antes da aula da tarde. Se acertar, durante esta semana, em cada almoço, eu acrescento um prato de carne ao seu pedido. Você escolhe o prato. O que acha? — propôs Ye Yiyun.
O espírito de Li Shiqing, ainda vacilante, não resistiu ao desafio tão divertido e apetitoso; sem hesitar, respondeu:
— Claro, claro! Palavras são compromissos, hein!
— Fique tranquila. Meu nome é Ye Yiyun, moro no dormitório masculino 202. Se eu faltar com minha palavra, pode divulgar o ocorrido à vontade — Ye Yiyun disse com despreocupação, percebendo pelo canto do olho a aproximação de alguém, e prosseguiu em voz baixa:
— Mas há uma condição: você deve resolver sozinha, sem perguntar a ninguém, sem consultar o manual do estudante. Está de acordo?
— Está me subestimando? Sem problemas! — Li Shiqing franziu com orgulho o delicado nariz de jade, com uma graça inocente.
— Combinado, até a tarde na sala de aula — Ye Yiyun assentiu sorrindo, apressando-se a sentar-se numa mesa vazia antes que alguém chegasse.
Li Shiqing acomodou-se próxima, devorando a comida enquanto perscrutava a área de refeições, de modo um tanto estranho.
— O que está fazendo? — nesse momento, a supervisora do dormitório feminino, Wang Hongying, passou e repreendeu-a.
Li Shiqing ficou tão contrariada que, ao vê-la se afastar, fez várias caretas em direção ao seu vulto.
Ao meio-dia, o sol ardia impiedoso, luminosidade intensa e calor escaldante.
As aulas matutinas terminavam às 11h40; as vespertinas só começavam às 14h. Além do almoço, havia tempo livre, que os estudantes de elite antes do segundo ano podiam administrar a seu bel-prazer.
Refugiando-se à sombra do edifício, Ye Yiyun e seus três companheiros retornaram ao dormitório.
O suor acumulado pela faxina matinal, fermentado nos semi-encerrados espaços do refeitório, impregnava Wang Wu, Zhao Qiu e Jiang Tianhao de um odor desagradável.
No caminho, Jiang Tianhao, normalmente falante, mostrava-se incomumente silencioso, até constrangido.
— Não estaria apenas oferecendo carne de graça a ela por alguns dias? — Zhao Qiu comentou ao ouvir Ye Yiyun mencionar a aposta com Li Shiqing.
Wang Wu compreendeu o teor do desafio, mas não seu desfecho, e não pôde se conter:
— Há algo peculiar na área de refeições do refeitório de elite?
Zhao Qiu revirou os olhos, mordendo as palavras:
— O foco não é a área, mas os estudantes que nela estão.
— Yiyun está tentando alertá-la: é proibido, entre os elite, que meninos e meninas sentem juntos à mesa, não é? — Jiang Tianhao, interessado, não pôde evitar de comentar.
Ye Yiyun olhou para ele, fingindo surpresa:
— Ora, achei que você tivesse ficado mudo.
— Vai te catar! — Jiang Tianhao deu-lhe um leve soco, envergonhado, apressando-se a mudar de assunto:
— Por que tanta complicação? Bastava dizer a ela.
Zhao Qiu e Wang Wu voltaram-se para Ye Yiyun; também pensavam assim.
— Uma palavra gentil aquece três invernos; uma palavra cruel fere até no verão. Nesta idade, o orgulho é forte, não se tolera sermão, especialmente sendo ela uma moça. Por que impor a outros o que não desejamos para nós? — Ye Yiyun explicou, sorrindo diante dos olhares perplexos, e acrescentou:
— Além disso, a supervisora chegou apressada; temi que me envolvesse em problemas.
— Haha! —
Os três riram juntos.
...
À tarde, por volta de 13h40
O sol ainda abrasava, o vento trazia calor, e os edifícios da escola reluziam como se banhados em ouro.
Na área de secagem dos dormitórios, a umidade dos uniformes evaporava rapidamente.
No caminho ao prédio das aulas, todos os estudantes, fossem de alça transversal, dupla ou única, portavam invariavelmente uma mochila.
A programação da tarde, como Zhao Rongbao explicara pela manhã, previa arranjo dos lugares, distribuição de livros e estudo livre, com ênfase na entrega dos livros.
Ye Yiyun trouxe uma mochila grande, de duas alças.
No ensino médio de Jiangzhou, como talvez em todo o país, o primeiro ano era intenso: além das três matérias principais, chinês, matemática e inglês, estudavam física, química, história, política, geografia e biologia; computação exigia uma prova; quanto a música e artes, eram apenas para cumprir formalidades, pois, segundo a tradição dos elite, raramente encontravam os professores dessas disciplinas durante o semestre.
Ao subir ao segundo andar, havia um pequeno grupo bloqueando a entrada da sala da turma experimental.
Ao se aproximar, viu que na porta estava afixada a tabela de assentos preparada por Lao Zhao.
— Ei, nós quatro sentamos juntos! — o gordinho, de olhar atento, exclamou com alegria.
Quando a fila dispersou, Ye Yiyun confirmou seu lugar e entrou para se acomodar.
Por coincidência, ele e Li Shiqing estavam na mesma fileira; terceira fileira, penúltimo lugar, com Li Shiqing à frente. O primo dela, Wang Wu, estava com Li Shiqing; Wang Wu atrás de Jiang Tianhao; Zhao Qiu atrás de Ye Yiyun.
Wang Wu ficou um pouco prejudicado — o gordinho era bem mais baixo que Jiang Tianhao.
Zhao Qiu, por sua vez, estava bem; Ye Yiyun não era muito mais alto que ele.
Chegaram cedo: apenas metade dos trinta alunos da turma experimental já estava presente.
O calor envolvia o ambiente; vários repousavam sobre as carteiras, olhos semicerrados de sono; ao fundo do corredor, na escadaria, ocasionalmente ouvia-se uma algazarra; fora da janela, nas árvores de camphora decorativas, aves cantavam; na sala tranquila, apenas Jiang Tianhao, Wang Wu e Zhao Qiu, recuperados do habitual, conversavam baixinho sobre assuntos triviais, enquanto Ye Yiyun contemplava as sombras dançantes das árvores, intervindo ocasionalmente.
O campus, no fim de uma tarde de verão, era, de fato, um refúgio sereno no tempo.
— Ye Yiyun!
De repente, uma voz explodiu ao seu lado.
Seu pensamento vagava distante; esse chamado quase fez sua alma se perder de susto.
O volume não era alto, mas surpreendeu muitos.
Os sonolentos, meninos e meninas, lançaram olhares queixosos para o autor do chamado junto à mesa de Ye Yiyun.
Jiang Tianhao, ao ver que era novamente Li Shiqing, levantou-se com a testa franzida — pela manhã já haviam conversado bastante.
— Não se preocupe — Ye Yiyun apressou-se a conter o primo de semblante azedo, voltando-se com resignação para Li Shiqing, cujo rosto já exibia um pedido de desculpas:
— Colega, venha, sente-se e fale devagar.
Li Shiqing coçou a nuca, sentando-se:
— Desculpe, fiquei um pouco emocionada.
— Compreendo. E então? Algum resultado da observação? — Ye Yiyun perguntou sorrindo.
Li Shiqing ia responder, mas seu olhar foi subitamente capturado pelos olhos do rapaz à sua frente: tão puros, as pupilas negras reluziam como obsidianas, refletindo até seu próprio rosto. Por um instante, ela ficou absorta.
— Li, colega Li?