Capítulo Oito: Acredite em Mim
Diante do pedido feito por Luo Yan, o homem demonstrou grande apreço. Afinal, ele próprio era um amante inveterado do vinho, quase escravo do próprio vício.
"Não há problema algum", respondeu de pronto, sem hesitação, pois Luo Yan já havia despertado nele a ânsia pela bebida. Qualquer resquício de cautela ou dúvida dissipou-se por completo. A maioria dos que apreciam o vinho não costuma ser de má índole, e Luo Yan, com sua aparência, de modo algum parecia alguém perverso.
Mesmo na antiguidade, julgava-se muito pelas aparências.
Obviamente, julgar o caráter de alguém não é tarefa tão simples. O essencial é que o homem sentia com clareza que o colar valioso que trazia ao pescoço permanecia intacto, sem sinal de ter sido subtraído; continuava seguro ali, como sempre. Ora, se o outro não pretendia roubar-lhe, dificilmente teria más intenções, pois entre tudo o que possuía, aquele colar e o cavalo ao lado eram seus bens mais preciosos.
Quanto a ser vítima de algum outro tipo de violência... O homem não tinha imaginação tão fértil para cogitar tais possibilidades.
Com movimentos ágeis, começou a se vestir, sem se importar se as roupas ao lado estavam completamente secas, vestindo-as apressadamente. Em suas palavras:
"Receber um convidado estando nu seria uma grave afronta à etiqueta de um letrado; seria de extremo descortês."
"A meu ver, a etiqueta é o de menos; assim vestido, acabará por adoecer, apanhando um resfriado", sugeriu Luo Yan.
O homem, contudo, desdenhou do aviso, acenando com a mão e sorrindo: "O vinho afugenta o frio; basta bebermos algumas taças a mais. Aliás, ainda não lhe perguntei o nome, caro senhor. Sou Han Fei, natural de Han, discípulo do confucionismo, recém-chegado de meus estudos."
Han Fei?!
Ao ouvir tal nome, Luo Yan estacou, surpreso, fitando Han Fei de alto a baixo.
A bem da verdade, não o reconhecera de imediato, tampouco fizera qualquer associação; afinal, quando assistia a animes, sua atenção sempre recaía sobre as belas personagens femininas.
Ainda assim, seria possível tamanha coincidência?
Seria isso o destino?
Mas, se era para encontrar-se com alguém, por que não o destino o levara até Yan Lingji? Por que um homem?
Não, não... Yan Lingji, ao que parecia, estava agora presa numa cela alagada; talvez fosse melhor assim, não tê-la encontrado. Se o acaso os aproximasse, não acabaria ele também trancafiado, formando com ela um par de amantes desventurados?
Luo Yan murmurou consigo mesmo, mas logo recompôs a expressão e respondeu com um sorriso: "Sou Luo Yan, sem pátria nem lar, um andarilho errante. Ultimamente, vago pelo mundo com minha esposa, sem destino certo."
Han Fei, atônito ante tais palavras, sempre se julgara um espírito livre, mas agora via diante de si alguém ainda mais destemido. Viajar pelo mundo em companhia da esposa – eis um verdadeiro audaz.
Por um instante, Han Fei fitou Luo Yan com um olhar singular, quase intrigado.
"E sua esposa?" indagou Han Fei, lançando um olhar cauteloso ao redor, sua expressão tornando-se mais reservada.
"Está não muito longe daqui. Saí em busca de comida e acabei encontrando Han Xiong – é mesmo obra do destino. Quanto à comida e ao vinho de hoje, conto com sua generosidade", disse Luo Yan, já em tom de camaradagem.
"Não se preocupe! Prometi vinho, vinho haverá. É coisa pouca", garantiu Han Fei, dando uma palmada no peito, sem mais se deter em reflexões. Se o destino os unira, que assim fosse; não havia por que pensar demais. Bastava que o outro não fosse pessoa de má índole.
Assim, trajado, Han Fei seguiu Luo Yan em direção ao local onde estava Jing Ni, conversando enquanto caminhavam.
"Se Han Xiong é natural de Han, deve conhecer bem estas paragens", comentou Luo Yan.
"Para ser franco, Luo... Luo Xiong, não estou tão familiarizado assim. Estive muitos anos fora, em busca de estudos; é minha primeira vez de volta em tanto tempo. Sinto-me um estranho na própria terra", respondeu Han Fei, puxando as rédeas do cavalo branco. Um sorriso constrangido se desenhou em seus lábios, e um lampejo de saudade e melancolia cruzou-lhe o olhar.
Recordava-se de como era Han ao partir; nada comparável ao que encontrava agora. O tempo passara depressa demais; num piscar de olhos, tudo mudara – ele próprio, Han, o mundo.
Mas aquela tristeza logo se desvaneceu.
"Não se preocupe com o vinho de hoje, Luo Xiong. Com este meu velho companheiro aqui, se houver vinho nas redondezas, havemos de encontrá-lo", disse Han Fei, confiante, batendo no cavalo branco ao seu lado.
"Ele?" Luo Yan lançou um olhar curioso ao animal. Han Fei pretendia usar o cavalo como se fosse um cão de faro? Realmente curioso. Este mundo, sem dúvida, tinha algo de extraordinário.
"Logo entenderá, Luo Xiong", respondeu Han Fei, sorrindo enigmaticamente.
...
Caminharam os dois, acompanhados do cavalo, até encontrarem a carroça.
"Minha esposa está dentro da carroça. Há quinze dias deu à luz; está debilitada e não pode receber visitas. Peço-lhe desculpas, Han Xiong", explicou Luo Yan em voz baixa.
"Não... não há problema", respondeu Han Fei, observando a carroça um tanto precária, sem saber bem como comentar a situação; por fim, limitou-se a dizer isto.
Luo Yan acenou levemente, pedindo que Han Fei aguardasse, e então subiu na carroça, afastando a cortina para entrar.
Ao adentrar, um leve aroma de leite o envolveu.
Jing Ni segurava Xiao Yan'er nos braços, olhos límpidos e frios, transbordando cautela; uma das mãos acariciava suavemente a espada, fitando Luo Yan em silêncio, como se aguardasse uma explicação.
Não fosse por perceber que o recém-chegado não sabia lutar, ela não teria permanecido ali, encarando Luo Yan.
No fundo, depois de dar à luz, Jing Ni tornara-se como um pássaro assustado, desprovida de qualquer senso de segurança.
"Você confiou em mim, veio comigo até Han; por que agora hesitar? Se confia em mim, confie em todas as minhas decisões. Jamais brincaria com a vida sua, minha ou deste pequeno", disse Luo Yan, sem se incomodar com a desconfiança e a vigilância. A confiança entre duas pessoas jamais se constrói em tempo breve, ainda mais considerando a trajetória de Jing Ni, sua identidade, a travessia, seus modos e gestos...
Jing Ni, durante todo esse tempo, não lhe fizera uma única pergunta – já era uma demonstração de grande consideração. Se fosse outra pessoa, certamente não teria mantido tamanha serenidade; muito menos o teria acompanhado até Han, trilhando esse caminho que a muitos pareceria suicida.
"Quem é ele?", perguntou Jing Ni, arqueando delicadamente as sobrancelhas, enquanto a mão se afastava, de leve, da lâmina.
"É Han Fei, o nono príncipe de Han, discípulo do confucionismo, pupilo de Xunzi, recém-retornado de seus estudos. Encontrei-o por acaso à beira do lago. Se quisermos escapar da rede que nos persegue, teremos de contar com sua ajuda", respondeu Luo Yan, com serenidade e convicção.
"Ele? Mas ele não sabe lutar!", replicou Jing Ni, sem entender por que Luo Yan depositava esperanças num erudito incapaz de ferir sequer uma galinha. Mesmo sendo o nono príncipe de Han, o que isso valeria nesta época? Aos olhos da organização Luo Wang, títulos nada significavam; muitos príncipes caíram sob suas mãos. Se necessário, não hesitariam sequer em assassinar um monarca.
"Por vezes, os problemas não se resolvem pela força das armas", retrucou Luo Yan, em tom suave.
Como homem de letras, Luo Yan sentia aversão pelas soluções violentas; isso, pensava, era coisa de brutos e insensatos.