Capítulo Dois: Fingindo-se de Eunuco para Passar pelo Portão da Cidade
Nantian ergueu levemente a cabeça e, ao perceber que Nanfei já havia chegado, fechou a correspondência que examinava com atenção.
— Sente-se! — ordenou.
No mesmo instante em que Nantian abriu a boca, Fang Qinghua, que estava ao seu lado, apressou-se a puxar um banco e colocá-lo junto curvado a Nanfei, lançando-lhe um olhar envergonhado — e, assim, acrescentou um rubor tentador ao seu rosto já de beleza devastadora.
Nanfei, por um instante, sentiu-se aturdido. Seria possível que aquela mulher à sua frente fosse a mesma de outrora, que lhe puxava as orelhas, montava-lhe nas costas e, ainda, impiedosamente, lhe batia com um chicote? Como podia ter-se transformado assim...
— Pai, ela...
— Falaremos disso mais tarde. Sente-se. Qinghua, saia por ora! — ao rolled Nantian, Fang Qinghua, relutante, lançou um último olhar a Nanfei, como se lhe confidenciasse, com um olhar irresistível, “Sim, é exatamente o que pensas”.
Ao sair do Pavilhão Qinghua, Qinghua não conseguiu conter a alegria e, esquecendo-se de sua habitual compostura, desceu as escadas aos saltinhos, leve e jubilosa.
Os ilustres frequentadores do Yan Yu Lou não puderam deixar de admirar, às escondidas, aquela rosa de espinhos, que naquele instante mostrava um raro e encantador sorriso.
— Achas que ela se apaixonou por alguém?
— Tolice! Quem, em toda a capital, ousaria cortejá-la, exceto o jovem mestre da casa do Primeiro-Ministro Wang...?
— É mesmo, ahah...
Enquanto todos murmuravam sobre Fang Qinghua, no interior do Pavilhão Qinghua tramava-se uma rebelião!
Nantian postava-se ante a janela, onde a luz desenhava delicadas sombras verde-claras nas esquadrias de madeira, conferindo ao ambiente uma elegância sutil, incapaz, porém, de conter a torrente de emoções e a ambição pulsante em seu peito!
— Os Guardas de Ferro já estão postos. Qinghua providenciará nossa retaguarda. Esta noite, partimos para a ação!
Como se contemplasse toda a vastidão da capital, Nantian voltou-se para Nanfei e declarou-lhe solenemente.
Talvez fosse a herança do sangue paterno, Nanfei herdara, desde menino, o mesmo ímpeto dominador do pai. O frio decisivo em seu extenso olhar era suficiente para incutir respeito e submissão espontânea.
Imitando o pai, Nanfei aproximou-se da janela, abriu outra folha e contemplou a imensidão estranha e, ao mesmo tempo, familiar da cidade. Recordou-se de há vinte anos, quando, com apenas quatro primaveras, viu-se obrigado a fugir noite adentro diante da queda do reino e da ruína da família...
— Corre, Fei’er, não olhes para trás! — foi a última frase que ouviu dos lábios maternos. Com os próprios olhos, viu sua mãe ser apunhalada até a morte pelo exército rebelde liderado por Nan Ba, hoje Imperador do Império Tianji.
Naquele instante, perdera até o direito de chorar. E, desde então, por vinte anos, jamais uma lágrima voltou a brotar de seus olhos.
Ao recordar o olhar inconformado da mãe ao morrer, Nanfei, mais uma vez, não conseguiu conter a pressão dentro do peito. Entre lágrimas e um sorriso amargo, voltou-se para a janela, desejando gritar ao mundo, mas conteve-se, temendo prejudicar os planos do pai.
— Estou pronto! Eu, fora, você, dentro?
— Não! Eu, dentro; você, fora! — Nantian arregalou os olhos, fitando Nanfei com firmeza. — Cada relatório dos guardas que enviei me trazia apenas louvor sobre ti: foste discípulo do supremo mestre marcial Li Sanfeng, sozinho aniquilaste uma centena de guerreiros de Huma, e ainda te aliastes ao Império Mongol Ocidental para atacar o Principado de Baixiya, entre tantas outras vitórias. Tantos feitos, todos teus. Como pai, sinto-me orgulhoso!
Nanfei escutava atentamente o pai enumerar seus feitos notáveis, mas não sentia orgulho. Por mais notável que fosse, o país não se restauraria em um só dia. Ainda que o atual imperador fosse seu tio de sangue, irmão de seu pai...
— E se, pai, tu caíres em batalha, o que devo fazer? — perguntou Nanfei, com expressão impassível, olhando nos olhos do pai. Não hesitou diante daquela questão temerária — era inevitável: para derrubar Nan Ba e recuperar o trono, haveria sacrifícios, mesmo que o pai fosse o príncipe herdeiro do regime deposto.
Nantian olhou o filho com surpresa. Aos vinte e quatro anos, Nanfei já possuía uma sabedoria e experiência inalcançáveis para seus pares. Tantas vivências lhe renderam ainda mais maturidade; tal filho fazia o pai sentir-se verdadeiramente em paz.
— Se eu tombar, basta que encontres meu corpo. Se venceres, sepulta-me com honra; se fracassares, incinera-me!
— Sim, pai! — respondeu Nanfei, resoluto.
Então, expôs a dúvida que há muito fermentava em seu peito:
— E quanto àquela...
— Qinghua? — Nantian, como se lesse-lhe o pensamento, interrompeu-o.
— Sim! Hm... — tentou manter-se sereno, mas um leve embaraço o traiu. Tão masculino ao falar de vida e morte com o pai, e de repente tropeçava ao mencionar uma mulher; era difícil não se sentir constrangido.
— Hahaha! Não precisa se acanhar. Fang Qinghua é tua prometida. Foi escolha de tua mãe, ainda em tua infância!
Foi como um raio em céu limpo.
Um choque absoluto, como se uma lâmina de duas pontas e nove argolas o cortasse da cabeça ao baixo-ventre!
— Preciso sair um instante. Quando for a hora, envie-me o sinal! — Nanfei se apressou a deixar o Pavilhão Qinghua, descendo a escadaria central do Yan Yu Lou sob os olhares estupefatos dos presentes.
Meia hora depois, Nantian, sozinho, sorvia lentamente o vinho, quando, de súbito, exclamou e tombou sobre a mesa, inanimado!
No Pavilhão Qinghua, a dez metros de altura sobre o Yan Yu Lou, Nanfei esgueirou-se pela janela, saltou ágil, desviando-se das armadilhas secretas armadas pelo pai.
— Por pouco! Os mecanismos do pai continuam tão letais quanto antes! —
Derramou o vinho da taça, substituiu-o por um modesto Zhuyeqing, e carregou o pai até a cama, cobrindo-o cuidadosamente. Em seu olhar, transparecia um respeito quase reverente.
— Nestes vinte anos, meu pai deve ter sofrido inúmeros tormentos. Por recuperar o trono, sacrificou-se em demasia. Que esta batalha permita que o filho arrisque-se por ti! Ainda que a morte me espere, que não desonre a vida por que luto!
Saltou pela janela e, num beco deserto, caiu silenciosamente ao solo.
Era já o entardecer, início do outono, e uma brisa fresca soprava; a rua estava deserta.
Um assobio breve, e Jin Liao aproximou-se velozmente. Num salto, Nanfei montou o cavalo, e ambos dispararam rumo aos portões da cidade.
— Quem vem lá? — Os soldados da guarda, armados de lanças de ponta vermelha e armaduras de ferro recobertas de tecido carmesim, barraram-lhe o caminho com imponência.
Com um leve toque na orelha esquerda de Jin Liao, este abrandou até parar diante dos guardas. Nanfei exibiu seu distintivo na cintura.
O soldado aproximou-se para examinar e murmurou:
— Da Corte Interna... Wei Xie?
— Há tal pessoa? — perguntou ao companheiro, que apenas sacudiu a cabeça.
— És da corte imperial? — voltou-se para Nanfei.
Adotando o tom peculiar dos eunucos, Nanfei respondeu com voz andrógina e ligeiramente afetada:
— Este servo foi enviado pelo Chefe da Corte Interna, Lorde Zhou Tong, para buscar o elixir da imortalidade para Sua Majestade. Ofender-me não importa, mas se eu relatar a Lorde Zhou... hmpf, não restarão cabeças para contar a história!
Ao ouvir o nome do temido Lorde Zhou, os guardas estremeceram. Famoso por sua crueldade e ambição, ninguém em sã consciência ousaria provocá-lo.
De imediato, mudaram de atitude:
— Já que Vossa Senhoria está em missão oficial, como ousaríamos barrar-lhe o caminho? Abram os portões!
— Ao menos demonstram discernimento! Hmpf...
Montando Jin Liao, Nanfei galopou para fora dos muros. Sentia náuseas de si mesmo — aquela era a primeira vez que se passava por um alias, e esperava nunca mais precisar disso. Ser eunuco não era coisa boa... não, de modo algum!
A trinta li a oeste dos portões, encontrava-se o refúgio secreto dos Guardas de Ferro, cuidadosamente disposto por Nantian. Todos aguardavam ansiosos o sinal para agir!
Mal sabiam, porém, que Nanfei já se aproximava furtivamente do esconderijo na floresta...