Capítulo 5 — Seu corpo está tão frio
As lágrimas corriam incontroláveis, em jorros, toldando a visão de Ye Xiaobai. Contudo, naquele instante, tal fato lhe era de somenos importância. Sentada sobre a galinha de duas cabeças, a certa distância do chão, Xiaobai olhou para o pai, que se encontrava a dois metros de si, depois para o solo; cerrou os olhos e, em seu olhar úmido, havia uma determinação incomum para sua idade.
— Papai! — exclamou ela, a voz transbordando júbilo, antes de cerrar os lábios e, de olhos fechados, saltar diretamente do pescoço da galinha de duas cabeças.
“Pum!” — mesmo com a camada de palha seca a amortecer a queda, o impacto foi estrondoso. Graças à palha, Xiaobai não sentiu o sangue escorrer pelo corpo, mas o quadril, ao atingir o chão, pareceu partir-se em dois, uma dor ardente e aguda a percorreu.
Mas, e daí?
No rosto sujo e encharcado de Xiaobai despontou o sorriso mais radiante. Esfregando as mãos nas vestes esfarrapadas, fitou com um brilho sonhador a figura não muito distante, e, doce e altiva, tornou a chamar: “Papai, Xiaobai te encontrou!”
A silhueta, contudo, não respondeu; sequer lhe dirigiu o olhar. A galinha de duas cabeças, surpreendida com a súbita queda da menina, cacarejou aflita: “Cu-cu.” Aproximando-se, a cabeça negra tentou, inquieta, trazê-la de volta ao colo.
Xiaobai percebeu, mas desta vez, antes que a cabeça da galinha pudesse tocá-la, desviou-se, evitando seu contato.
“Cu-cu-cu... cu-cu-cu...” A galinha não cessava de chamar, balançando as cabeças para os lados, como se, num suave apelo, advertisse Xiaobai a não se precipitar, pois à frente havia perigo.
Era um gesto de ternura, próprio de um ancião protegendo o mais jovem.
Xiaobai sorriu ante sua própria imaginação; ouvindo os constantes clamores atrás de si, voltou-se e, fitando a galinha com seriedade, disse: “Cu-cu, não precisa se preocupar. À frente está meu pai. Eu o encontrei. Quero lhe dizer tantas coisas.”
“Cu-cu... cu-cu.” Não se sabia se a galinha compreendia; após breve pausa, tornou a cacarejar.
Mas Xiaobai, tendo dito o que desejava, não se deteve em maiores explicações. Agora, diante do pai, seu coração pulsava descompassado; a dor no quadril era irrelevante.
— Papai, papai, papai! — como uma criança aprendendo suas primeiras palavras, Xiaobai só sabia repetir aquele vocábulo, correndo apressada ao seu encontro.
O interior das coxas doía, a palha espessa do chão fazia seus tornozelos se afundarem, retardando-lhe os passos — mas, mesmo assim, Xiaobai avançava, com todo o empenho de seu pequeno ser.
Papai, papai, Xiaobai finalmente encontrou você.
A distância entre Xiaobai e o pai não era grande. Mesmo que sua corrida fosse mais lenta do que imaginara, em poucos minutos encontrava-se a menos de dois passos dele.
A galinha de duas cabeças, como que compreendendo a obstinação da menina, calou-se, mantendo-se próxima, os olhos cravados na figura à frente, atenta a qualquer movimento suspeito, pronta a atacar sem piedade.
Xiaobai, porém, nada percebeu disso.
O homem diante de si, talvez a notando, deixou escapar um baixo “roar”, carregado de uma indizível cautela. No entanto, após o brado, conteve o impulso de saltar, permanecendo imóvel.
A proximidade permitiu, enfim, que Xiaobai visse claramente o rosto do pai. Embora a pele parecesse mais clara, o olhar mais amarelado, os lábios excessivamente rubros e as vestes não mais exalassem o aroma familiar, aqueles traços — sobrancelhas, olhos, nariz e boca — eram, sem dúvida, os do pai gravados em sua memória.
Ela não se enganara.
Um júbilo incontido transbordava no peito de Xiaobai. A saudade represada por tanto tempo rompeu todas as barreiras; de pé, ela ergueu o rosto, aguardando ansiosa por um abraço paterno. Mas, como o abraço não vinha, seus lábios se curvaram em desalento e, sentindo-se injustiçada, deu alguns passos à frente, enlaçando com força as pernas do pai.
Devido à diferença de altura, o abraço alcançou-lhe apenas as coxas. Mas o simples fato de, enfim, tê-lo nos braços, dissipou toda mágoa.
Este era seu pai, o pai que Xiaobai mais amava e amaria.
Com o rosto erguido, contemplou-o, deixando transparecer nos olhos toda a afeição e alegria de uma filha idolatrada.
— Papai, Xiaobai sentiu tanto a sua falta. Procurei tanto por você... Mas por que o papai não abraça Xiaobai?
Murmurou em tom magoado.
— Roar?
— Cu-cu!
Ao som do lamento, dois gritos aflitos ecoaram pela floresta. Mas nada de hostil se seguiu.
A galinha de duas cabeças, que já avançara alguns passos, ao ver que o homem não atacava Xiaobai, recuou até sua posição anterior.
O homem, de garras negras à mostra, ouvindo as palavras da menina e fitando a pequena que mal alcançava suas pernas, exibiu um olhar confuso; a mão, ao roçar de leve Xiaobai, recolheu-se.
— Papai, Xiaobai sentiu tanto a sua falta. Você não sente nem um pouquinho de falta de Xiaobai?
— Roar?
— Papai, sabia que ontem Xiaobai ficou com tanto medo...?
— Roar?
— Papai, sabia que Xiaobai estava faminta, faminta? Mas segui o Cu-cu e acabei de comer bastante, não estou mais com fome. Papai está com fome? Posso pedir ao Cu-cu para levar você para comer, pode ser?
— Roar...
O bramido, antes repleto de cautela e incerteza, foi aos poucos cedendo ao movimento carinhoso de Xiaobai, que se aninhava em suas pernas. E, à medida que a menina repetia “papai, papai”, o rugido foi-se tornando quase um sussurro.
— Papai, Xiaobai está tão cansada, quer colo do papai. — Depois de tanto tempo ouvindo apenas rugidos, Xiaobai já se impacientava. Sem mais delongas, agarrou-se ao pai como um polvo, braços e pernas enlaçando-lhe o corpo, o olhar decidido: “Se papai não pegar Xiaobai no colo, Xiaobai vai ficar pendurada para sempre.”
— Roar! Roar! — Ele baixou o olhar, fitando Xiaobai longamente. Por fim, ao som do rugido, o nariz estremeceu levemente; recolhendo as garras, ergueu-a com delicadeza.
— Ya! — Xiaobai sentiu as mãos do pai escaparem-lhe, e, num grito agudo, começou a flutuar, erguendo-se a mais de três metros de rapto, antes de despencar. O temor de cair pesadamente, como antes da galinha de duas cabeças, fez-lhe os olhos se arregalarem: “Papai, vou cair! Meu bumbum dói!”
— Roar. — Novamente, um rugido indistinto. Mas quando a queda tornou-se iminente, o pai estendeu os braços a tempo de ampará-la.
— Tum-tum-tum! Tum-tum-tum! — O coração batia descompassado. Segurando-se firme, Xiaobai, o rosto corado de excitação, sorriu:
— Papai, está brincando de jogar Xiaobai para o alto? É mais divertido que antes! Xiaobai quer brincar de novo. Mas, desta vez, papai pode segurar Xiaobai mais cedo? Xiaobai tem medo...
Ao dizer isso, sentiu-se um pouco envergonhada. Papai sempre lhe dissera para ser corajosa. Fitando a expressão inexpressiva do pai, os olhos amarelados, Xiaobai sorriu, buscando agradar, e, inclinando-se, beijou-lhe a face.
Ao tocá-lo, sentiu os lábios gelados, como se fossem de gelo; a frieza instintivamente a fez franzir o cenho. Notando uma centelha de dúvida nos olhos do pai, Xiaobai riu, um som tilintante, e, com o rosto ardente, procurou, por contato, aquecê-lo, enquanto implorava:
— Papai, quero brincar de novo! Joga Xiaobai bem alto, bem alto! Papai... papai...
— Roar, roar. — Ele rugiu duas vezes; se não fosse pelo som gutural, poderia-se jurar que tentava imitar a palavra “papai”.
Mas, antes que Xiaobai pudesse responder, virou levemente o rosto, sentindo o calor que dela emanava. Um lampejo de conforto, inexplicável, cruzou-lhe os olhos. Mais uma vez, ergueu Xiaobai, desta feita com mais vigor, lançando-a de mais de três metros para quatro. Embora a tenha amparado ao final, a altura era demasiada para Xiaobai.
— Papai, ufa, papai, ufa! — arfava ela, exausta, mas ainda assim chamava pelo pai. Mesmo sem compreender-lhe o apelo, ao ver-lhe o rosto excessivamente rubro, ele cessou o movimento.
— Cu-cu, cu-cu! — Ao som do chamado de Xiaobai, a galinha de duas cabeças, inquieta, ergueu-se abruptamente, as asas batendo furiosamente. Num ímpeto, atacou. Uma cabeça visou os olhos e a têmpora do homem; a outra, o peito e o coração.
— Roar! — Os olhos dele brilharam de súbito, sentindo o perigo iminente. Soltou um brado de fúria, baixou o olhar para a atônita Xiaobai, e, num salto ágil, afastou-se dezenas de metros da galinha, ignorando os braços que o apertavam, e depositando a menina no chão. Então, sem hesitar, virou-se e lançou-se contra a galinha de duas cabeças.