IV. A carruagem perfumada atada a que árvore, em que lar? (4)

Keagungan Dinasti Song Sang Suci di Fajar Petir 3596kata 2026-03-12 14:36:19

A masmorra da prefeitura de Kaifeng...

Embora sucessivas gerações de imperadores Song fossem dotadas de benevolência e tivessem emitido repetidas ordens para que as prisões fossem mantidas em condições decentes, os funcionários subalternos sempre encontravam maneiras de contornar tais decretos. Assim, o cárcere da prefeitura de Kaifeng permanecia sombrio e exalava um odor insuportável. Mal fora empurrado para dentro, Zhou Quan sentiu um ímpeto irresistível de dar meia-volta e sair, mas, ao fazê-lo, foi recebido por um empurrão violento.

— Eu... eu sou inocente! Juro que sou inocente! — gritava ele, com o rosto lívido.

— Quem entra aqui, de cada dez, nove afirmam sua inocência. O que sobra é aquele que, de tanto apanhar, já não consegue mais falar — ressoou, então, uma voz gélida por trás de Zhou Quan.

Ao voltar-se, deparou-se com um sujeito de cabelos desgrenhados, encarcerado, que o fitava com olhos penetrantes.

Em duas vidas, era a primeira vez que Zhou Quan se via atrás das grades, experiência totalmente inédita para ele, embora soubesse que, nas prisões, sempre havia um “rei do cárcere”.

Seria aquele homem o tal chefe dos presos?

— O que está olhando? — rosnou o sujeito de cabeleira desgrenhada, arregalando os olhos.

Zhou Quan esboçou um sorriso, uniu as mãos em saudação e fez uma reverência:

— Saudações, tio.

Sabia bem que, diante de tipos dominadores, ceder passivamente só traria mais humilhações; ao contrário, era preciso deixar o outro incerto quanto à sua natureza, para proteger-se, ao menos por ora. Em outras palavras, tratava-se de ludibriar, pois heróis não se sacrificam inutilmente; superar o obstáculo imediato era prioritário.

De fato, ao ver que aquele jovem de apenas quinze ou dezesseis anos exibia modos de um experiente citadino, o grandalhão de cabelos desgrenhados mirou-o com desconfiança.

Zhou Quan, então, compreendeu a sua situação: não podia contar com ninguém ali; restava-lhe apenas buscar meios de se salvar. Valendo-se das habilidades de vendedor adquiridas em outra vida, logo conseguiu estreitar laços com aquele companheiro de infortúnio.

Chamava-se Fang Zhuo, e ali estava encarcerado há muito tempo, conhecendo como poucos os meandros do cárcere. Zhou Quan, prudente, não indagou-lhe a razão do encarceramento; mas Fang Zhuo, por estar preso há tanto tempo, encontrava agora um interlocutor e falava sem cessar.

Embora Zhou Quan ainda não estivesse habituado ao sotaque local, conseguia compreender o essencial, e dessa torrente de palavras obteve algumas anedotas sobre a prisão da prefeitura de Kaifeng.

Quanto ao lendário “tríplice cutelo” de Bao Zheng, não passava de fábula; os prefeitos raramente permaneciam longos períodos em Kaifeng.

Zhou Quan procurou saber quem era o atual prefeito: tratava-se de Li Xiaoshou, recém-empossado naquele ano, que já havia ocupado o cargo em anos anteriores, afastara-se e, agora, retornara.

Curiosamente, após mandar Zhou Quan para a masmorra, o senhor Li Xiaoshou não viera interrogá-lo, tampouco alguém viera falar com Fang Zhuo ou com qualquer outro preso.

Não apenas naquela noite, mas, ao amanhecer do dia seguinte, ninguém apareceu.

Com o estômago roncando de fome, Zhou Quan já se inquietava: afinal, na masmorra da prefeitura de Kaifeng, ao menos sopa e arroz deveriam ser servidos. No entanto, nada lhe fora trazido!

Até mesmo Fang Zhuo, seu companheiro de cela, mostrava-se inquieto, praguejando em murmúrios, embora falasse tão depressa que Zhou Quan não conseguia compreender-lhe as palavras.

— O que terá acontecido, tio Fang? — perguntou Zhou Quan.

— Normalmente, servem-nos duas refeições diárias, mesmo que seja apenas uma sopa rala, o suficiente para enganar o estômago. Mas hoje, já passou da hora do desjejum e ninguém veio! Certamente algo grave se passou, e os carcereiros e funcionários estão todos ocupados — respondeu Fang Zhuo, levantando-se nervoso e caminhando de um lado para o outro na cela.

Só ao meio-dia ouviram, enfim, o raro som de passos, seguido pela abertura da porta.

Ao ver o carcereiro que entrava, Fang Zhuo exclamou baixinho:

— Ora, onde está o velho Zheng?

— Velho Zheng? Ele não pode mais trazer-lhes comida; agora, temo que precise que alguém a traga para ele próprio! — resmungou o carcereiro, lançando-lhes um olhar avaliador e arremessando um baldinho de comida no chão.

Fang Zhuo ainda quis perguntar algo, mas o carcereiro voltou-se para Zhou Quan:

— E tu, rapazote, como te chamas?

— Zhou... Zhou Quan... — Zhou Quan sabia já o nome do corpo que habitava.

— Então és mesmo filho do escriba Zhou. Vem comigo — ordenou o carcereiro.

Nos olhos de Fang Zhuo reluziu um brilho invejoso; Zhou Quan, por sua vez, sentia-se confuso. Contudo, pela fala do carcereiro, deduziu que seu pai havia movido influências para interceder por ele.

Seguindo o carcereiro por corredores tortuosos, chegaram a um cômodo isolado. O homem abriu a porta e disse em voz baixa:

— Escriba Zhou, trouxe o rapaz.

Logo, Zhou Tang, de semblante preocupado, surgiu diante de Zhou Quan.

Constatando que o filho não sofrera maus-tratos, Zhou Tang respirou aliviado e, voltando-se para o carcereiro, fez uma reverência:

— Não há palavras para agradecer-te, irmão Hong San. Zhou Tang saberá retribuir.

O carcereiro acenou, apressado:

— O tempo é curto; se tens algo a dizer, sê breve.

Zhou Tang segurou o filho e, após algumas perguntas, não estranhou o estranho sotaque de Zhou Quan. Vendo que este realmente não sofrera, passou a relatar o que se passava fora dos muros.

Originalmente, Zhou Tang enviara o filho à delegacia militar apenas para assustá-lo, mas, por um infortúnio, cruzaram com Li Xiaoshou, que o mandou diretamente à masmorra da prefeitura de Kaifeng. Por isso, Zhou Tang também se encontrava extremamente ansioso.

Sem alternativas, restou-lhe advertir o filho para que se mantivesse cauteloso.

— Se fores chamado a depor, como deverás proceder? — indagou Zhou Quan.

Após uma noite ouvindo Fang Zhuo, Zhou Quan já conseguia comunicar-se no idioma corrente, ainda que lentamente.

— Depor... Por ora, não. Aconteceu um grave incidente, e o senhor juiz não terá tempo para ti — respondeu Zhou Tang.

Foi só então que Zhou Quan soube, pela boca do pai, do grande acontecimento na prefeitura de Kaifeng.

O funcionário do Tesouro Imperial, Lü Shou, furtara ouro e jade do depósito sagrado; após ser descoberto, fora preso, mas, na véspera, fugira da prisão e ainda não fora recapturado.

Isso representava um golpe terrível para Li Xiaoshou, recém-reempossado prefeito de Kaifeng!

Por isso, tomado de fúria, Li Xiaoshou convocara todos os oficiais para deliberar e mandara prender todos os carcereiros e funcionários envolvidos, acusando-os de “facilitação criminosa”, e muitos foram castigados exemplarmente.

Ao ouvir isso, Zhou Quan teve um lampejo.

Ansiando por sair da prisão, percebeu aí uma oportunidade.

— Pai... Pai, minha acusação foi forjada, não foi? — perguntou Zhou Quan.

— Vens perguntar-me sobre teus próprios atos? — Zhou Tang resmungou, irritado.

Zhou Quan fez uma careta, calando-se. Afinal, eram os pecados do antigo dono daquele corpo, mas, já que herdara a carne, devia arcar com as consequências.

— Está claro: alguém cobiça o cargo de escriba de teu pai. Embora não tenhas cometido grande delito, ofereceram um pretexto conveniente — disse Zhou Tang, em tom frio.

Em tempos passados, Zhou Tang não teria confidenciado isso ao filho, mas, desde que Zhou Quan desmascarara o embuste dos “Três Imortais”, percebeu que o rapaz amadurecera.

— A chave é a senhora Li. Pai, se ela retirar a queixa, alegando mal-entendido, eu poderei sair, não? — arriscou Zhou Quan.

Ao ouvir tal proposta, Zhou Tang resmungou de novo. Se a dona do bordel, Li Yun, retirasse o processo, Zhou Quan seria liberado; mas Li Yun jamais o faria sem que Zhou Tang aceitasse certas condições.

Zhou Quan, então, sorriu maliciosamente:

— E se eu disser que, naquele dia, vi Lü Shou na casa dela?

Aquelas palavras fizeram os olhos de Zhou Tang arregalarem-se de espanto.

— O senhor prefeito não é homem fácil de enganar; se fores pego mentindo, tua sentença será de morte! — ponderou Zhou Tang, após breve silêncio.

— Acusação falsa também leva à morte. Por ora, o prefeito está ocupado demais para se ocupar comigo; mas, quando tiver tempo, com seu modo de agir, que futuro me aguardaria? — replicou Zhou Quan.

Zhou Tang, surpreso com a determinação do filho, deixou transparecer nos olhos um brilho severo.

— Vejo que, com esta lição, meu filho amadureceu bastante. Sendo assim, teu pai jogará contigo desta vez. Li Yun, a tal senhora Li, aproxime-se e escute!

Zhou Quan inclinou-se, e Zhou Tang sussurrou-lhe algumas palavras ao ouvido, fazendo com que os olhos do rapaz também se arregalassem.

Aquele pai, afinal, era um homem resoluto!

Zhou Quan, a princípio, só pensava em sair da prisão, mas, pelo plano do pai, não apenas se libertaria, como ainda arrancaria um naco de vingança contra a senhora Li Yun.

— Acusar falsamente meu filho? Não posso deixar barato... Se não soubesse que oficiais da corte frequentam sua casa, eu lhe daria uma lição inesquecível! — resmungou Zhou Tang.

Quase se alongavam em confidências quando o carcereiro retornou:

— Escriba Zhou, o senhor juiz está a chegar. É melhor ir agora. Fique tranquilo: enquanto eu estiver aqui, teu filho não sofrerá agravos!

O velho Zhou trazia uma grande marmita, que era destinada ao filho, mas que agora Zhou Quan teria de levar de volta à cela.

Fang Zhuo, ao ver Zhou Quan regressar com uma marmita, logo percebeu que aquele jovem tinha boas conexões. Aproximou-se, solícito, e Zhou Quan não recusou sua companhia; ao contrário, partilhou com ele as carnes e iguarias que trouxera, pedindo ainda ao carcereiro uma ânfora de vinho para brindarem juntos.

Zhou Quan provou o vinho, mas achou-o turvo e com um travo agridoce, de que não gostou; deixou, pois, o resto para Fang Zhuo.

Após três taças, Fang Zhuo tornou-se ainda mais loquaz. Zhou Quan, lembrando-se de que o companheiro mencionara Lü Shou na noite anterior, decidiu sondá-lo.

Fang Zhuo, já meio embriagado, não suspeitou do rapazote, e logo desatou a falar sobre Lü Shou.

Acontece que já estivera na mesma cela que Lü Shou, ouvindo-o narrar as condições do Tesouro Imperial.

Porém, a maioria das histórias não passava de bravatas de presidiário, sem grande valor.

Fora dos muros, na sala principal da prefeitura, Li Xiaoshou, juiz interino e membro do Gabinete Xianmo, caminhava lentamente até o trono de audiências.

Sentando-se ereto, lançou um olhar ao redor; todos os funcionários e soldados estavam mudos de medo, o que lhe trazia certo contentamento.

Contudo, ao lembrar-se do caso Lü Shou, seu ânimo se ensombrou.

Não confiava em nenhum daqueles funcionários, sempre suspeitando de conluio com criminosos.

— E quanto aos depoimentos de ontem? — indagou em voz grave.

Como previra, todos clamavam inocência, sem que ninguém confessasse coisa alguma.

Li Xiaoshou acariciou a barba, rindo friamente. Aqueles patifes só aprenderiam com o açoite.

— E aquele prisioneiro de acusação falsa, trazido ontem ao cárcere? Tragam-no aqui! — ordenou, mudando de ideia num átimo.

Detestava todos os criminosos, e aquele acusado de denúncia caluniosa era o exemplo perfeito para servir de advertência aos demais!